O verbo que fala

A vida não me sorriu assim de primeira, ou de repente fui eu que não vi (será?). Acho que me sorriu lá pela terceira, quarta, quem sabe até quinta vez. Deve ter desconfiado, porque eu também não sou muito de sorrir de primeira por me ver distraída pelo mundo em volta. Um dia eu encontrei as palavras… Juntei uma letra com outra, peguei uns livros com nomes de animais e quando vi lá estava: a vida me sorriu na primeira palavra que eu escrevi. Era meu nome, quase uma forma de me apresentar a mim mesma, e acho que foi alí que me reconheci no alto dos meus 06 anos.

Escrever é parte desse ” eu ” que ninguém vê, ou que eu gosto de tentar preservar comigo. Não é por mal, arrogância ou preguiça… É por instinto de preservação, coisa de quem aprendeu quem nem sempre os outros querem ouvir nossas palavras de coração aberto. E, vale dizer, as pessoas não precisam saber tudo sobre nós – e nós, não precisamos saber tudo sobre elas.

Escrever é esse lar que eu fiz pra mim, encontro e reencontro. É perder o rumo, traçar um caminho novo desconhecido, dar chance ao acaso. É me descobrir, mesmo quando pensava já ter me acertado. É recalcular as certezas, revisitar os sentimentos, reviver memórias .

Escrever é passado, presente e futuro. É quem eu fui mesmo antes de saber ler ou juntar as palavras. A primeira que aprendi foi mesmo o meu nome, a segunda foi o nome da minha mãe e a terceira foi ” amor “. Eu não sei explicar o motivo, talvez já estivesse mesmo escrito nas linhas do destino que aquela coisa de juntar letras ia ser a coisa que eu mais iria amar na vida, eu nunca questionei. Ou vai ver é só por ser uma palavra fácil.

Escrever é declarar o amor, mas também o fim dele. Fiz isso algumas vezes. Hoje é diferente, já penso que nem todo mundo merece um texto, seja de amor ou de raiva. Mas quando merece, há de merecer, bom… Aí é diferente. Escrever é dizer que, ei, olha aqui, olha pra mim, é sério, eu fico, se você ficar também. Vamos? Na hora que precisar eu falo, mas vê se cuida o que eu escrevo, porque é aí que eu sei me explicar no meio do meu jeito atrapalhado.

Escrever é curar traumas, ou pelo menos tentar. E também tem esse outro lado: escrever é mil e uma tentativas. São tentativas de entender, explicar, revelar, superar, criar, sentir, imaginar. É o meu universo que nunca dorme.

Escrever é terapia, foi a psicóloga que me disse, nem fui eu. Até então, eu achava que tinha alguma coisa errada comigo: eu poderia escrever o dia inteiro, e não é exagero. Chegava a ficar com dor de cabeça precisava escrever. Eu só queria parar um pouco, porque escrever também dói, e nem sempre eu queria doer. Às vezes o que eu precisava era silenciar e tudo ficaria bem. Até dosar esse controle demorou um pouco.

Escrever é fazer as pazes, como eu fiz com o meu jeito, entendendo que eu escrevo porque falar não é lá o meu forte. E não me entenda mal: eu posso discursar para várias pessoas, não tenho vergonha, estudei pra isso, mas não sobre mim, não sobre o que eu carrego aqui. Sobre isso eu só escrevo, e já é muito. Desde que aceitei o meu verbo ” escrever “, as palavras e a minha cabeça ficaram em paz. Hoje, eu consigo até respeitar quando as palavras surgem ou somem, deixo que tenham o tempo, o gosto e o modo delas. Às vezes, são ácidas, em outras passam rasgando na garganta, mas também sabem fazer carinho. São dias de sol ou de inverno, independente do que acontece lá fora, porque é isto: escrever é tempo de dentro.

Escrevo para fugir de mim e me trazer de volta. Me perdoe quando eu não souber falar, mas pode ter certeza de que vou fazer esforço para escrever.

Eu sinto, eu escrevo. A ordem dos fatores não altera o produto.

4 comentários

  1. Avatar de Dayenne Dayenne disse:

    Maravilhosa, como sempre, para sempre. 🌹

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    1. Avatar de Crisley Crisley disse:

      Não queria ser clichê, mas o que dizer de você? Mulher forte e guerreira, que nasceu pra isso, meu bem: escrever e nos encantar, ponto. 😂❤

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      1. Avatar de driziane driziane disse:

        Que honra, ler isso vindo de você. Obrigada, meu bem. 💖😍

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  2. Avatar de Cloud Cloud disse:

    “ eu escrevo porque falar não é lá o meu forte ”.

    Quero ler e reler várias e várias vezes , eu senti a tua voz aqui , maravilhosa! #souumadrilover

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