Entardecer

Sobre um sentimento que me acompanha desde sempre.

Bem antes de ser quem eu sou, eu já me sentia assim, quando eu notava essa sensação  percorrer meu corpo eu olhava ao redor para ver se alguém estava observando o mesmo que eu, contudo nunca obtive sucesso.

Gosto dessa coisa que tudo fica mais bonito quando o sol resolve se  pôr, como se tudo fosse tendo um tom meio apagado, afinal, temos 12h de sol todos os dias mais ou menos, mas nem damos a mínima, a gente até foge dele, entretanto bastante ele começar a se retirar para valoriza-lo.

O entardecer é um aviso que um ciclo está perto de finalizar, não o dia, um ciclo, pois o que você viveu hoje, não irá viver amanhã, mesmo que sua rotina seja todos os dias iguais.

As ruas ficam misteriosamente mais movimentadas, os becos ganham vida, as paredes pichadas também, alguém passa do outro lado da rua, o ônibus cheios de vidas cortam meu caminho, dois pássaros cortam o céu  e eu continuo andando.

Nesse exato momento sinto que eu posso ser quem eu quiser, posso dar vida a pensamentos que supõem minha mente, se eu pudesse morar na rua da esplanada. Mas, sei que não posso, não nasci para residir em sonhos.

Gradativamente o sol vai descendo e o calor do dia se esvai junto com ele. Sinto o volume do universo reduzindo em virtude do fim do dia e por um momento não existem possíveis problemas a serem elucidados.

Em dado momento até chego a gostar de mim mesma, das maçãs que já caíram da árvore não possuo o pior dos gostos. São tão raros esses momentos. Nesse curto silêncio relembro quem eu era e o que eu era antes de ser o que não sou mais.

Em um estalar de dedos já se foi, a  cidade se desvencilhar da cartase que criei na minha cabeça e o ritmo volta ao normal. Será que mais alguém pensou isso nos breves minutos que tudo isso se sucedeu? Acho que não.

30 anos são equivalentes a 10.957 entardeceres e acredito sentir na pele grande parte deles, mas de mil lugares que sonhei visitar, pessoas que quis ser e realidades que tive vontade de viver.

  Mas acima de tudo me senti viva 10.957 vezes e talvez seja esse o motivo de eu permanecer de pé todos essas dias.

Me rendo ao entardecer apenas para me reerguer no amanhecer.

O doloroso até de presumir

Sobre descobrir que nem tudo é sobre você

  Não, esse texto não é uma indireta (nem mesmo pra mim)

  Há dois dias você chegou a uma conclusão um tanto… delicada… Sobre as pessoas ao seu redor e, hoje, tive a surpresa de descobrir que você havia exagerado um pouco em sua hipótese.

  Eu estava caminhando pela cidade quando recebi sua mensagem que dizia: “ é isso, todo mundo me odeia e eu nem sei o motivo ” e eu quase tropecei na escada rolante enquanto digeria suas palavras.  Naquele exato momento descobri que você foi pelo caminho mais traiçoeiro que é, justamente, o mais fácil.

  Presumir é bem simples, basta confiar em sinais ao invés de fatos.

  À primeira vista, todo mundo nos odeia, não nos ama, nos inveja ou tenta causar algum tipo de dor. E, para isso, bastante um olhar torto

Existe várias fatores que impactam nesse ato tão sorrateiro e presume o que o outro está pensando e nada de bom pode surgir nessa ação.  Afinal, a ansiedade e o ego são parceiros número um da presunção.

Criar suposição não é o caminho. Mesclar atitudes, pensamentos e memórias também não é o caminho. E agir por impulso tão pouco é o caminho.

  Se a gente não se permite a comunicação então que tipo de relação estamos construindo? 

  Às vezes você encontrou a pessoa em um péssimo dia. É possível que a pessoa estava atarefado demais para dar aquela devida atenção a sua mensagem e talvez sua mensagem tenha chegado no meio de uma crise, por fim é capaz que a pessoa não supra suas expectativas (por vezes irreais).

  Existem milhões de situações que poderiam ser evitadas com uma conversa, com o ato de escutar e acolher e quem sabe até ir embora mesmo, não tem problema.

  E talvez você só sinta o impacto deste pequeno ( e poderoso ) gesto  quando você estiver, ironicamente, do outro lado.

  Não se sabote, pergunte.

  Se permita estar errado sobre algo. Dizem por aí que a vida é sobre se permitir, não é?!

Nem todas as respostas estão dentro de você.

Daqui te vejo

Sobre o amor platônico e sua natureza inalcançável.

… Esse texto ficou perdido por muito tempo, pois eu não tinha encontrado as palavras certas para finalizá-lo. …

O meu copo esvaziou e foi preenchido umas dezenas de vezes por você ao longo da noite e ainda não senti a vontade (ou necessidade) de ir embora.

  O dia caiu e, dentro de algumas horas, a noite tomará  conta dessa cidade, mas nada mais importa do que sua presença.

Entrei nesse lugar fora de tempo com intuito de silenciar meus pensamentos e dei de cara contigo assim que cheguei.

Eu notei sua presença.

Você me notou de imediato.

Tudo poderia ter sido transacional e impessoal, porém, você deu um passo interessante ao puxar conversa enquanto criava uns drinques ao escolher no cardápio.

Lá pelo quinto drinque você retirou o “senhora” que antecede meu nome e senti que tínhamos atravessado a fronteira do outro. Você muito focado nas palavras e no assunto no qual falava, sabia que eu te admirava a todo instante.

          O amor platônico contém uma beleza incomparável mesmo

Trocamos nomes, piadas, sugestões e dicas, ponto de vista, risadas, olhares, partilhamos o silêncio e nada disso acabará a magia de quando eu for embora.

Te admiro. Te desejo e tenho a pura convicção de que não passará disso.

O amor platônico é bem menos doloroso do que uma desilusão, pois as cartas já estão à mesa.  Na vai evoluir dentro dessas quatros paredes e já está claro para ambas as partes, contudo, o gracejo, a leveza e a chama continua acesa.

Desilusão é como colocar os dedos em uma vela com a certeza de que você não irá se queimar, afinal, te avisaram que assim seria.

Agora o amor platônico é como colocar os dedos no fogo da vela e parar no exato momento que antecede a dor. É assim que te vejo aqui da bancada te ver andando de um lado para o outro.

Olho meu copo vazio, olho seu copo cheio, você me olha e rimos de maneira serena. Existe uma sensualidade doce na idealização ingênua e singela desse momento.

Quando me levanto, pago a conta e vou embora, posso sentir seu olhar me acompanhando até a porta, como se quisesse colocar um caso ao redor de mim para me proteger do frio.

Estranha, saio daquele lugar com aura de proteção ao redor, então também posso sentir que existiu uma energia boa ou um desejo no sentido oposto.

Às vezes, o platônico é mais acolhedor e satisfatório do que o amor romântico.

Essa noite durou o tempo que deveria e reverbera para sempre dentro de casa um de nós.

Mar de Ofensas

Sobre os “ofendidinhos”

  Chego sempre no mesmo horário, me sento aqui na orla e fico observando os guardas vidas socorrendo as vítimas.

  Já virou rotina alguém se afogar diariamente nessas águas. A maioria delas ressuscita na praia, é bem raro alguém morrer no mar de ofensas.

  Todos se jogam aqui e a tendência é que o número de casos aumente.

                Afinal de contas, a quem se ofenda com qualquer coisa.

  Convido você a caminhar pela beira da praia e peço encarecidamente que os seus chinelos grafados com a palavra mimimi fiquem na orla.

  Uma vez me disseram que o tal mimimi é aquela dor que no outro e não em nós… Portanto, os incidentes dessa praia não se trata disso. Aqui o buraco é mais embaixo, e falaremos do oposto.  Existem pessoas ofendidas por tudo, aqui chamados carinhosamente de “ofendidinhos”.

Todos compartilham de uma mesma premissa: a ofensa ocorre quando algo não saiu como o esperado. Basta alguma coisinha sair do (falso) controle, para que essa pessoa corra para o fundo do mar.

Divergiu da sua linha de pensamento: se ofende.

Te questionou: ihhh, mais uma ofensa.

Te corrigiu: ofensa com ódio.

Se a sua verdade absoluta machuca alguém, talvez o ofensor seja você.

  Ofensa, por definição, é um ato de atingir a dignidade de alguém por palavras.  Se uma pessoa não pensa igual a você, ela não está te ofendendo.   Se alguém te orienta, ou ensina algo, ela raramente terá o interesse de te causar mal.

Você já parou pra pensar o quanto a suas atitudes às vezes podem ofender os outros?! 

É muito fácil dizer que o mundo está chato ou que não se pode falar mais nada hoje em dia, quando a sua autocrítica não está em dia ou o seu discurso está carregado de achismos.

Os “ofendidinhos” são tirados do mar, pois todo mundo merece uma segunda chance, inclusive quem nela  não acredita.

Grande parte do nosso desenvolvimento enquanto seres humanos está pautado nessa mini evolução constante, sobretudo, com os mais diferentes de nós.

Todos nós aqui do mar de ofensas sabemos que, lá no fundo, esses sujeitos são intransigentes e controladores que não sabem aceitar o diferente sem se doer por dentro.

Levar uma vida irritadiça, com a atitude alheia, fatalmente, te colocará na posição de vítima que você tanto crítica.

E aí? Vai se jogar no mar também ou fará algo para driblar a alcunha do ofendidinho?

O Alçapão no fundo do poço

Sobre entender a dor

Esse texto foi concebido para ser uma espécie de morfina nos dias extremamente difíceis (mas talvez falhe).

Cai. Sim, de novo.

Talvez cair seja um apelido bonito, pois eu sinto que eu  despenquei dessa vez. 

Tomei uma invertida num momento inoportuno e posso jurar que o mundo virou ao contrário e eu tombei com tudo.

  Uma vez alguém me disse que eu precisava voar, porém acho que percebi o perigo tarde demais… Somando a isso, minhas asas não suportaram o peso do corpo. Para minha surpresa, eu caí dentro de um poço que havia secado e senti algo machucando as minhas costas.  Ao me virar, notei que era um alçapão. Tratei de abrir e me deparei com uma escada que me levando para além do tal fundo do poço.

   Existirão dias, semanas e meses que nos levarão para lugares mais escuros dentro de nós.

  Acreditei nos fatos e despistei o medo. Desviei de tanta coisa.

  E, mesmo assim, vim parar em um lugar que eu apelidei de Ausência.

  Não há nada aqui. O silêncio dói. A escuridão toma conta. Não há um caminho a seguir.   Pode se tratar de um cubículo de dois metros quadrados, mas pode ser tão infinito quanto o universo.

Uma vez na ausência tudo perde o sentido. Tudo esfria. Nada de bom se cultiva. Não tem janela, a luz não entra.

E parece que meus castelos de cartas e lembranças não ficam em pé.

  É exatamente neste lugar que eu venho para entender a dor.  O oposto da felicidade não é tristeza ou ira, é a ausência.

  Ausência em esperança em dias melhores.  Ausência do toque e do afeto. Ausência de sentir o calor. A ausência.

  Não olhar para a ausência não é uma garantia de que não voltarei para cá. Pelo contrário, quando não damos a devida atenção para as dores e vulnerabilidade é que escorregamos de volta.

                                       Aqui falta de tudo.

  Entretanto, como qualquer dor, uma hora ela ameniza.   A gente pode até fingir que não dói, armazena-la  em algum lugar e seguir em frente. Simplesmente esconde-la.

  Eu não gosto de sentir tudo isso, mas sei que é algo que está além do meu/do nosso controle. (E isso me conforta também).  E para sairmos daqui precisamos sem dúvidas esconder  nossas dores.

  Viver a dor e aceitar o processo é, ironicamente, menos doloroso do que lutar contra aquilo que nos corrói.

Não é possível reescrever uma dor ou um trauma, mas podemos reduzir com o tempo ( e somente com o tempo ) o impacto que ele causa dentro de nós.

O estrago já está feito, o que nos resta é cuidar da dor, e, assim cuidaremos de nós mesmos de forma genuína.

E demora.

E arde.

E cairemos em contradição.

E vamos supor que não tem fim.

Até que ameniza, porque nunca passa.

  Escalar o poço de volta à superfície é algo que sempre me cansa, mas sei que no fundo se faz necessário sair daqui.

                                  VAI NO SEU TEMPO.      LEVE O TEMPO QUE PRECISAR.

 

 

Ambidestro

Sobre não precisar escolher ou explicar.

Dedico esse texto a todas as pessoas confrontadas, expostas ou colocadas na parede por conta da sua orientação sexual. Também o dedico a uma parte minha que não existe mais. Uma parte de mim que decidi deixar para trás para conseguir respirar direito.

Se você consegue dizer quem é você. Ninguém jamais terá o direito de dizer o contrário.

Talvez eu tenha chegado tarde demais, cedo demais ou quem sabe na hora certa.

A culpa não é nossa se temos a possibilidade de espalhar mais amor.

Escrevo com as duas mãos ligeiramente da mesma maneira, porém só sinto com um coração, seria mais fácil se fosse com dois, admito.

Minha mão esquerda é muito boa para desenhos livres, do lado esquerdo guardo todas as informações sobre você. Já com a mão direita eu geralmente tento organizar todas as coisas que sinto quando toco em você.

E assim vou seguindo em constância com meus desejos. Hoje estou mais azul, amanhã, capaz que eu esteja rosa de novo, não posso controlar essa corrente que ultrapassa meu corpo e acelera meu coração.

Vale esclarecer que não importa se você me viu empenhada em um lado do corpo, eu ainda sou ambidestro. Se você reparar bem vai perceber que meu corpo oscila entre duas cores distintas e eu estou no meio de ambas, eu não escolhi que fosse assim, porém sou, e isso basta.

Não é que eu decidi a cor, eu simplesmente sou as duas.

As más línguas a pouco vieram me perguntar o “motivo” de eu ser assim, em tom de gracejo. Eis que agora me ocorreu que ninguém nunca perguntou a um destro porque ele é “assim”, você já?

Muitos já falaram que tentaram ser como eu, mas não conseguiram tamanha proeza.    Aqui entre nós, qual a sua porcentagem?

A minha forma de escrever e de amar parece irritante e parece tirar o conforto para um bom número de pessoas, pelo simples fato de ser diferente, com o tempo a gente aprende que algumas coisas não se explicam, essa é uma delas.   Já é tão difícil lidar com tudo que a gente sente, mas tem sempre um desavisado pra perguntar o que eu prefiro. Alguns descontentes ainda opinam: impossível você não preferir um, qual a sua porcentagem?

Todo dia alguém dúvida de quem somos, o que fazemos e com quem fazemos, mas tudo bem. Não estamos aqui para mudar a cabeça de ninguém, pelo contrário.

Infelizmente não podemos mudar os infinitos questionamentos na cabeça de todos esses desocupados que nos veem mais esquerdo ou direito.

Não importa, pois ainda somos ambidestro no final do dia. A minha única escolha é ser quem realmente sou.

(Esse prazer ninguém pode tirar).

Não importa de qualquer lado, venha. O importante é vir com amor. Minha ambivalência rejeita qualquer preconceito.

Meus Sapatos

Direta e Reta.

 

Peço gentilmente que você pare por um segundo, olhe em volta por 60 segundos e respire fundo. Pra variar tome uma atitude diferente de todo mundo.

Antes de destilar seu ódio

De julgar o que não conhece

De criticar sem pensar

De espalhar o que você não sabe

De atacar sem hesitar

De cochichar enquanto me olha

De inventar fake news sem motivos

E de procurar meus defeitos apenas para jogá-los em mim.

  Desafio você a colocar-se no meu lugar. Incito-te a calçar os meus sapatos. Instigo-te a ver o mundo com os meus olhos castanhos. Desafio-te sobretudo a andar pelo labirinto da minha história.

Para que então você tenha o direito das suas palavras rudes e calculadas que se originam dessa areia movediça que você chama de opinião própria.

  Uma vez testada, a minha gentileza se converte em áspereza pura, aproveite a oportunidade, pois não sou do tipo de segundas chances.

    “ Sou como haste fina, que qualquer brisa verga,nenhuma espada corta.” – Maria Bethânia.

Volte pra casa, Wendy.

Sobre se sacrificar pelos outros e esquecer de si.

A família está aos prantos, os vizinhos estão apavorados e não há nenhuma atualização em seu Instagram nas últimas 48 horas.

Wendy sumiu misteriosamente a noite.

Bom, não posso dizer que estou surpresa com tal atitude de Wendy, afinal, já é a terceira ou quarta vez que ela faz isso só esse ano. Digamos que Wendy não perde a oportunidade de se colocar em segundo lugar por qualquer pessoa.

Wendy pensando no próximo e esquecendo de si mesma.

Quando ela não está fugindo de crocodilos e piratas, Wendy certamente investe seu tempo em controlar todos ao seu redor.  Sua vida segue totalmente sem rumo, até porque ela não tem tanto tempo para se autoconhecer ou compreender o que faz bem para si mesma. 

Wendy considera a palavra responsabilidade algo muito valioso, inclusive, fique à vontade para delegar as suas para ela.  Ah! Tentaram falar com o Peter, mas ele diz que não sabe de nada (logo ele, o ser mais confiavel que já existiu).

Desconfio que ela foi atrás da “felicidade plena” e deve ter se metido numa encrenca maior do que imaginamos. 

Desconfio que Wendy se sinta, digamos, a parte de tudo e todos. É como se agradar fosse uma missão interminável, quanto mais pessoas ela conhece, mais ela quer agradar.

Ah, e nem pense que tudo vem de graça, basta contraria-la para que um circo se arme e a discussão sobre “quem controla quem” surja.

Por essas e outras que eu não confio no Tal Peter, ela se atrai por todos que se negam a fazer o mínimo.

  CASO VOCÊ A  ENCONTRE POR AÍ, POR FAVOR, MANDE ELA VOLTAR PRA CASA.

Já não basta a Sininho querer defender de todo mundo, a Wendy precisa voltar pra casa e, especialmente, para si mesma. 

Ela não vai voltar por conta própria, pois, quando se estatela por um, logo se levanta com gosto por outro (e nunca por si mesma).

Espero que a Wendy um dia possa compreender que tudo que ela tanto busca já está dentro dela (justamente o lugar que ela mais abandonou).

Ah! E se cruzar com o Peter Pan, por gentileza, dê um belo chute nele… Parte disso foi causado por ele.

Quem Deixou?

só pode haver um engano!

   Ei! Retire suas palavras nesse exato instante!

  Como assim você gosta de mim? Que disparate é esse? Isso é horas para tamanhas palavras pesadas?

  Volta aqui, não fique com esse cenho franzido enquanto me fala essas coisas.  Quem te autorizou a ter carinho por mim? Eu jurava que as coisas estavam tão boas até agora.

  A água é mais quente aqui na superfície e você vem com essa história de mergulhar um pouco mais fundo?

  Pra quê tanto afeto? Porque você quer saber como estou me sentindo?  Tá, então você quer apenas dormir comigo no sentido literal da palavra? Não vai ter algo a mais? Ué!

   Aí meus Deus, era tudo mais fácil quando eu não significava nada.

  E que história é essa de que às vezes você pensa em mim? Como “isso” é possível?  Tem como fazer “isso” parar?

  Não sei lidar com isso, tem algum botão para que eu possa desver/desouvir ou dessentir?

  Você poderia nunca ter me contado. Eu preferia que você tivesse sufocado todo esse carinho aí dentro ao invés de tê-los jogados para o mundo. Principalmente pra mim.

  Às vezes minha sinceridade machuca, mas é assim mesmo. 

Você pode voltar daqui há cinco anos? Talvez eu consiga digerir tudo isso melhor.

  Aliás, não me leve a mal, esse é meu jeito de ser. Espero que entenda.

Ps:. Só reforçando que eu disse “talvez”, então não crie expectativas (também não sei lidar com isso).

  

Lugares de dor

Sobre reflexo. 

    Aviso: O conteúdo pode ser sensível para alguns leitores.

      Esse é o lugar para onde você vem quando tudo dá errado. Às vezes dá errado porque a projeção foi um pouco distinta da realidade. Às vezes dá errado porque não era para ser e isso deveria bastar.

   Entretanto, nunca é o suficiente.

Irredutível consigo mesmo e com a inconstabilidade da vida, você passa pela porta, olha para os dois lados, me encontra no canto escuro do bar e vem até mim.

Eu não te chamei. Você que veio.

Eu sou a Dor e estou no topo da lista, é a minha que você recorre quando se machuca. 

Você diz para todo mundo que não queria estar aqui, mas está. Vejo suas mãos trêmulas enquanto escolhe um drinque que ficará intacto pelo resto da noite. 

Você busca a mim, a Dor, quando ondas de amargura ardem dentro de ti, especialmente quando não se sente você mesma.

                Ficar aí dentro é bastante doloroso, não é?

Você gosta de falar comigo porque já não aguenta sua própria voz ecoando no vazio do seus dias.  Ninguém pergunta por ti. O falso:  Bom dia-Boa tarde-Boa noite-Como você está?- diário te afastou completamente dos outros. 

Você só queria alguém interessado, por isso sou tão especial.

Eu não detenho tamanha beleza, não sou a pessoa mais sabia do mundo, nem tão rica quanto gostaria de ser, porém, eu te escuto e te vejo.  Não te trato como um fantasma.

Você não parece estar sofrendo, mas está. É por isso que veio.

                      Eu sou o seu reflexo ou seu oposto?

     Ninguém te prendeu à mesa. A porta do apartamento não está fechada.

    Enquanto você precisar de mim, lá eu estarei.

   O copo sobre a mesa.

   A porta de um apartamento na Ostia, Itália.

   A mensagem de  estou bem, (mesmo sabendo que não está).

   Eu posso amenizar sua dor e o custo é irrisório. Basta escolher. Fique.

                De todos os lugares do mundo, eu sou o seu predileto. E cá entre nós, não há muitos outros lugares que te acolheriam.