Disk consciência pesada

sobre uma ligação no meio da noite

Não me recordo sobre o quê especificamente eu estava sonhando, mas era algo bom… usar o era nessa frase significa muita coisa, afinal, eu tive o desprazer de escutar o toque do meu celular durante meu sonho.

Eu sei que de alguma forma ou de outra você vai chegar aqui, então vou deixar bem claro que você simplesmente desmanchou o melhor sono que eu tive em dias.

Lembro de ter revirado meus olhos dentro do meu próprio sonho (muito obrigada por isso) antes de me transportar através daquele vórtice que interliga o mundo dos sonhos e a realidade.

Acordei entorpecida, me revirei na cama umas cinco vezes esperando aquele som cessar, o que não aconteceu. Me levantei aos tropeços, bati meu dedinho na quina do armário, xinguei e peguei o celular.

Quando vi que ainda era 3:42h eu sabia que era você mesmo antes de atender, aliás, ligação de um número bloqueado nem merece meu respeito. Atendi a ligação só para cessar aquele barulho.

– Oi? – disse eu ainda sonolenta

– … – do outro lado ouvia – se vozes e uma música muito alta no fundo.

Revirei os olhos (agora no mundo real) e finalizei a ligação, porém você me ligou de novo e eu só tinha duas opções, ou eu jogaria meu celular pela janela ou atenderia (te juro que a primeira opção soou maravilhosa na minha cabeça), como você não vale tanto assim resolvi atender.

– Oi? – disse eu mais nervosa

– tudo bem com … você? – perguntou notavelmente bêbada.

– claro, como eu poderia estar mais feliz com uma ligação sua às 3h da manhã? Era tudo que eu precisava! – respondi seca.

– você não muda, né?! Eu amo tanto você…

– claro que você ama, você até sustentou uma grande mentira, e apareceu assumindo sua esposa, se isso não é gostar de alguém, então eu não sei o que é. – retruquei

– você entendeu tudo errado .. é de você que eu gosto.. sério.. posso ir aí? – disse quase implorando.

– aqui você não entra mais, aliás, acho que você tem uma casa, chame um Uber e vá pra sua casa. – falei ainda mais áspera.

– acho que não tenho mais casa..

– nossa, por quê será?

Então desliguei o telefone.

Não me levem a mal, ela pediu por isso… Quem vê até pensa que é inocente, vítima de um amor frustrado, mas só eu sei tudo que passei por um amor bandido desse. E não me venha com esse olhar, não foi você que teve que atender a chamada.

Minutos depois o celular tocou de novo e eu tomei a decisão errada (óbvio).

– fala, o que é?

– eu não mereço perdão? é isso? eu tô errada em ter te amado? o que eu fiz? eu gosto de você.. fala alguma coisa.. me perdoa?

– hummm, deixa eu ver aqui… – Então desliguei.

Ela estava quase chorando quando misturava as frases em uma só. Eu não tenho mais paciência pra isso.

O telefone tocou mais três vezes antes que eu finalmente o atendesse pela última vez.

– eu só queria dizer que… – Ela começou a falar e eu a interrompi de imediato.

olha, sério. eu não aguento mais essas tuas recaídas, essas tuas frases ensaiadas, essas tuas carências insuperável e pior, esse teu dramalhão desnecessário. É toda vez a mesma coisa, você chega, acha que faz e acontece, enche a cara de cachaça e quer voltar. Se esse teu amor de papel não funciona nem contigo mesmo, o que te faz achar que vai funcionar comigo? – Falei, cheia de raiva.

– …

Ainda mais silêncio..

– tá bom, Drizi. Eu não vou mais te incomodar não.

– ainda bem que você entendeu, agora vou dormir. aproveita esse teu tempo sozinha e leve tua consciência pesada para dar um passeio, vai que um dia vocês se entendem. Não que eu me importe, claro.

Finalizei a ligação e desliguei o celular.

Qual o problema das pessoas, sério? Todo mundo quer um lugar para voltar, um lugar seguro e longe da tempestade, contudo não faz nada para merecer. Aliás, me sinto uma pessoa mais leve depois te ter superado tudo isso sozinha, ao menos alguém se benefíciou com toda essa palhaçada.

Olhei para o relógio, marcava 4h49.. droga, só tenho mais 3h11 de sono antes de ir trabalhar, uma ligação na madrugada não é para qualquer um.

Mas há um ponto muito positivo acima de tudo, serão 3h11 de sono sem qualquer peso na consciência, meu travesseiro agradece.

Um luxo para poucos.

Muito poucos.

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