O Alçapão no fundo do poço

Sobre entender a dor

Esse texto foi concebido para ser uma espécie de morfina nos dias extremamente difíceis (mas talvez falhe).

Cai. Sim, de novo.

Talvez cair seja um apelido bonito, pois eu sinto que eu  despenquei dessa vez. 

Tomei uma invertida num momento inoportuno e posso jurar que o mundo virou ao contrário e eu tombei com tudo.

  Uma vez alguém me disse que eu precisava voar, porém acho que percebi o perigo tarde demais… Somando a isso, minhas asas não suportaram o peso do corpo. Para minha surpresa, eu caí dentro de um poço que havia secado e senti algo machucando as minhas costas.  Ao me virar, notei que era um alçapão. Tratei de abrir e me deparei com uma escada que me levando para além do tal fundo do poço.

   Existirão dias, semanas e meses que nos levarão para lugares mais escuros dentro de nós.

  Acreditei nos fatos e despistei o medo. Desviei de tanta coisa.

  E, mesmo assim, vim parar em um lugar que eu apelidei de Ausência.

  Não há nada aqui. O silêncio dói. A escuridão toma conta. Não há um caminho a seguir.   Pode se tratar de um cubículo de dois metros quadrados, mas pode ser tão infinito quanto o universo.

Uma vez na ausência tudo perde o sentido. Tudo esfria. Nada de bom se cultiva. Não tem janela, a luz não entra.

E parece que meus castelos de cartas e lembranças não ficam em pé.

  É exatamente neste lugar que eu venho para entender a dor.  O oposto da felicidade não é tristeza ou ira, é a ausência.

  Ausência em esperança em dias melhores.  Ausência do toque e do afeto. Ausência de sentir o calor. A ausência.

  Não olhar para a ausência não é uma garantia de que não voltarei para cá. Pelo contrário, quando não damos a devida atenção para as dores e vulnerabilidade é que escorregamos de volta.

                                       Aqui falta de tudo.

  Entretanto, como qualquer dor, uma hora ela ameniza.   A gente pode até fingir que não dói, armazena-la  em algum lugar e seguir em frente. Simplesmente esconde-la.

  Eu não gosto de sentir tudo isso, mas sei que é algo que está além do meu/do nosso controle. (E isso me conforta também).  E para sairmos daqui precisamos sem dúvidas esconder  nossas dores.

  Viver a dor e aceitar o processo é, ironicamente, menos doloroso do que lutar contra aquilo que nos corrói.

Não é possível reescrever uma dor ou um trauma, mas podemos reduzir com o tempo ( e somente com o tempo ) o impacto que ele causa dentro de nós.

O estrago já está feito, o que nos resta é cuidar da dor, e, assim cuidaremos de nós mesmos de forma genuína.

E demora.

E arde.

E cairemos em contradição.

E vamos supor que não tem fim.

Até que ameniza, porque nunca passa.

  Escalar o poço de volta à superfície é algo que sempre me cansa, mas sei que no fundo se faz necessário sair daqui.

                                  VAI NO SEU TEMPO.      LEVE O TEMPO QUE PRECISAR.

 

 

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