Daqui te vejo

Sobre o amor platônico e sua natureza inalcançável.

… Esse texto ficou perdido por muito tempo, pois eu não tinha encontrado as palavras certas para finalizá-lo. …

O meu copo esvaziou e foi preenchido umas dezenas de vezes por você ao longo da noite e ainda não senti a vontade (ou necessidade) de ir embora.

  O dia caiu e, dentro de algumas horas, a noite tomará  conta dessa cidade, mas nada mais importa do que sua presença.

Entrei nesse lugar fora de tempo com intuito de silenciar meus pensamentos e dei de cara contigo assim que cheguei.

Eu notei sua presença.

Você me notou de imediato.

Tudo poderia ter sido transacional e impessoal, porém, você deu um passo interessante ao puxar conversa enquanto criava uns drinques ao escolher no cardápio.

Lá pelo quinto drinque você retirou o “senhora” que antecede meu nome e senti que tínhamos atravessado a fronteira do outro. Você muito focado nas palavras e no assunto no qual falava, sabia que eu te admirava a todo instante.

          O amor platônico contém uma beleza incomparável mesmo

Trocamos nomes, piadas, sugestões e dicas, ponto de vista, risadas, olhares, partilhamos o silêncio e nada disso acabará a magia de quando eu for embora.

Te admiro. Te desejo e tenho a pura convicção de que não passará disso.

O amor platônico é bem menos doloroso do que uma desilusão, pois as cartas já estão à mesa.  Na vai evoluir dentro dessas quatros paredes e já está claro para ambas as partes, contudo, o gracejo, a leveza e a chama continua acesa.

Desilusão é como colocar os dedos em uma vela com a certeza de que você não irá se queimar, afinal, te avisaram que assim seria.

Agora o amor platônico é como colocar os dedos no fogo da vela e parar no exato momento que antecede a dor. É assim que te vejo aqui da bancada te ver andando de um lado para o outro.

Olho meu copo vazio, olho seu copo cheio, você me olha e rimos de maneira serena. Existe uma sensualidade doce na idealização ingênua e singela desse momento.

Quando me levanto, pago a conta e vou embora, posso sentir seu olhar me acompanhando até a porta, como se quisesse colocar um caso ao redor de mim para me proteger do frio.

Estranha, saio daquele lugar com aura de proteção ao redor, então também posso sentir que existiu uma energia boa ou um desejo no sentido oposto.

Às vezes, o platônico é mais acolhedor e satisfatório do que o amor romântico.

Essa noite durou o tempo que deveria e reverbera para sempre dentro de casa um de nós.

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