
Eu tenho certeza de que alguma coisa aconteceu. Mas não, ainda não sei explicar talvez porque eu mesma não entendi. O que eu sei é que algo me diz “calma” e coloca tudo em prova essa minha tranquilidade tão característica que virou inquietação.
Quando alguém assim tem a calma abalada, é porque alguma coisa aconteceu. Eu não vou ignorar, mas também não vou parar, não faz o meu tipo. Hoje mesmo acordei cedo, mais uma vez, nenhuma novidade até aqui. Finalmente fui até a padaria mais perto que tem cheiro bom e comprei o pão novinho na primeira fornada do dia. Normalmente eu compro o do supermercado mesmo, que também é ótimo, mas olha só: cada dia eu acordo mais cedo e o supermercado abre mais tarde. Quem é o certo ou errado? Não sei, mas tem coisa que precisa de reajuste na rotina, até uma ida à padaria, e por mim tudo bem. Eu gosto de como eu aprendi a não me apegar aos hábitos bons de uma forma que me tire a chance de criar novos, porque a beleza deve estar mesmo em sempre se desapertar qualquer vida a mais, certo?
Faço todas essas coisas, das mais simples a mais complexa do dia, tentando não pensar em alguma coisa que aconteceu, afinal, eu não sei mesmo explicar. Mas está lá, vivo, sendo sentido, talvez até fazendo sentido. As coisas bem ao seu tempo, inclusive as explicações dela. A lição é aprender que o tempo do nosso querer/sonhar/desejar não é o mesmo do acontecer, e isso não precisa ser um problema. A sintonia é outra, a linha do tempo também, e nem sempre é cronológica. Aliás, sabia que eu fui lá, bem lá atrás para entender que, sim, alguma coisa aconteceu? Nós estamos em movimento… Quando colide? Vai virar o quê? Tomara que seja qualquer coisa que brilha, mesmo sendo só do lado de dentro. Aliás, teu lado de dentro andou sentindo? Alguma coisa aconteceu.
Eu tive essa certeza dias desses andando pela cidade mesmo, nem foi refletindo muito. Não teve cena de filme, nem nada, eu sou bem comum. Você vai até rir: foi quando sentei em frente a uma igreja para dar uma respirada leve e descansar uns dois minutos da caminhada. Fazia calor na rua, ninguém pode me julgar ( eu até orei e agradeci – não sei pedir ). E foi quando senti a calma e o silêncio daquele lugar, tentando decifrar os desenhos no teto ( anjos? Demônios? ), que admiti o óbvio: alguma coisa aconteceu. Minha cabeça andava com muito barulho, quem sabe o problema antes era esse. Quando tudo silenciou, eu percebi.
Tenho pensado em cortar o cabelo há quatro dias, mas sei a briga que vai ser quando minha mãe ver o que eu fiz com o cabelo que ela ama mais do que eu. Só deu pra comprar o óculos, porque já vai mal o sol no olho e a inflamação por aqui, é problema crônico. O pão quentinho pela manhã ainda consigo, não abro mão ( agora na padaria mesmo , porque, você sabe, o horário e tal ). Vejo todos os dias a vizinha passear com os três cachorros, o trem passar e os moleques jogar bola no pátio do colégio. O cotidiano é tão bonito, eu queria até te mostrar, sei que você poderia ver poesia pelos cantos. Há vida a passar.
Eu vou dar tempo, é o que minha intuição manda e ela não costuma falhar. Acontecer é c-o-n-s-t-r-u-ç-ã-o, foi o que eu aprendi durante toda minha vida. Vou deixar o querer e o acontecer se alinharem, quem sabe o cotidiano muda mais uma vez e a janela vai ser tão bonita quanto a janela que vejo agora. Os frames da vida não me cansam, mesmo quando me atropelam – e, vá lá, vez ou outra rola uma dessas.
Alguma coisa aconteceu. Uma cigana me parou na rua esses dias e ela me confirmou: sim, aconteceu. Mas olha que curioso: ela também me disse que também não conseguia entender a mensagem, só que tinha mesmo uma mensagem. Você me fala? Pode escrever, na verdade. Sei que tem sofrido com insônia e indecisão, então se quiser, aproveita uma hora dessas em claro ( eu com certeza não terei dormido ou já terei acordado ). Faz como quiser, mas me fala: por aí, alguma coisa aconteceu?