
Não espere despedida, só vá. Quando sentir que o lugar não te acomoda mais, vá. Não espere o abraço, a festa de adeus, o carinho, qualquer coisa. Um dia, quando essa pele não te habitar mais, parta, aprenda a partir.
Saiba partir mesmo depois de partir – se, porque é nessa capacidade de ir que nos colamos outra vez. E não fique parada aí esperando respostas que só chegam com o tempo, porque ele precisa passar e você precisa esperar o ponteiro andar, não há solução nessa vida que no fundo é igual para todos nós.
Vivemos contra o relógio, não é isso que é a vida? Esperamos a hora que acaba de vez essa jornada e pronto: não há mais o que contar, nem lugar para chegar ou partir. Dizem que existe um depois que não se sabe muito bem como funciona, embora as crenças tenham sua versão cada uma, e o certo é que um belo dia, atravessando a rua ou na cama de um hospital tudo acaba. A vida é uma corrida contra esse relógio, você vai mesmo brigar tanto assim com o tempo? Vai mesmo querer estar onde não é o seu lugar? Vai esquentar essa caseira pra quem, enquanto a sua está vazia?
Se não souber partir, aprenda. Obrigue – se, sei lá. Há lugares, coisas, pessoas, momentos, sentimentos que vão quebrar ainda mais, se nós não soubermos partir – e essa tarefa é nossa, não do outro. Então, antes de se recolher do chão, saia de pé, ou quase de pé, como for. Saia, vá, grite lá fora um pouco, se necessário. Corra, corra, corra. Faça da vida a sua linha de chegada, desenhe um troféu e cole na parada do seu quarto, imagine um alvo e persiga ele. Eu não sei. Encontre um jeito.
Estou dando conselhos ao vento como se soubesse muito, mas é aquela coisa de confiança, lembra? Como já disse, eu também não sei. Parto no movimento, no susto, pela frieza, às vezes, no pânico mesmo eu vou. Quando vejo, fui. Carrego tanto aqui dessas partidas que nem sei dizer, mas me afoguei muitas vezes pra aprender pelo menos uma coisa: se alguém te deixou sozinho no mar, sem você saber nadar, seja o seu próprio salva vidas. Não romantiza a sua falta de ar ( e isso vale pra tudo na vida ).
Parta, parta logo. Hoje, amanhã, não semana que vem. Faça as malas e carregue apenas o essencial, porque o caminho é difícil e você vai precisar de leveza em muitos momentos. Ah, e abandone certezas, já aviso que elas não cabem por aqui. Mas, por favor, não se abandone. Agarre – se firme, não olhe para trás e parta.
Quando você menos esperar, lá está ela, a linha de chegada. E aí, então, tudo faz sentido sem precisar se quebrar.
E foi assim: desde o dia em que lembrei que sei partir, eu nunca mais quis te procurar.