Aceno

Parque Solon de Lucena/João Pessoa

Ela balançou ao longe, foi difícil avistar. Depois, foi ainda mais difícil acreditar que era pra mim aquele aceno. Mas era isto mesmo: a bandeira branca acenava pra mim.

Bandeira branca pra felicidade, pra entender que não precisa se levar tão a sério nem cair nas armadilhas de quem nos atravessa por puro ego. Se. Por vezes, sem pretensão alguma, como sempre se foi, também é bom e permitido, ajuda aliviar os dias, as emoções, os pesos. Não vou dizer que é o momento de paz, penso até que vai contra os meus princípios dividir a vida em “estar tudo certo”. Não é bem por aí, mas existe algo no meio do caminho, principalmente eu e aquela bandeira que acena.

É o momento da bandeira branca e basta, desse intervalo entre princípios por onde não sei dirigir, apesar de até agora o carro nunca ter caído de lá de cima. Sigo a direção pelas placas, mas às vezes elas não estão lá ou é difícil enxergar no escuro. O escuro, aliás, virou um grande amigo, já sabe até me respeitar tanto quanto eu respeito ele e vivemos assim em harmonia. Quem já dirigiu à noite, sabe como é. Vivemos assim: ele não ultrapassa os limites de lá e eu de cá.

Estou me dando permissão pra encerrar o que não tem vida e descubro que não é pouca coisa. É por isso que o peito pesava tanto: de onde veio tudo isso? Sei as respostas aqui e alí, enquanto outras abro mão de entender, porque há um tempo pra cada coisa da vida que não sei explicar quando queremos, e sim quando estamos prontos. Coisa boa é saber se ouvir e se respeitar: no fundo há algo que diz haver jeito pra (quase) tudo.

Dou bandeira branca pra esse sorriso que me invade, me pega pela mão e me diz que é bonito aceitar quem fica, ouve, respeita, questiona. É bonito se deixar levar. Bandeira branca também pra esse abandonar de sonhos, deixando algumas coisas na caixa do “nunca realizado” sabendo que não é o que tem que ser, abrindo espaço pra tantos outros na caixa “a realizar”. Pra quem não cansa há sempre mais, acho que sou desse time. Por agora, vou trocando mobílias de lugar pra ver o sol nascer melhor na janela da alma.

Estou aqui segurando essa bandeira por mim e por todas as versões de mim, inclusive aquelas que ainda vão chegar e outras que ficaram pelo caminho para que essa de hoje existisse. É corajoso, não precisa haver modéstia, pois nem todo mundo suportaria se habitar. Por aqui, experimentar e habitar vem sendo bonito – processos cíclicos que encontram o eixo.

Talvez o carro caia de cima, talvez não. Bandeira branca para descobrir.

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