Uma carta para Heloísa, a feminista

Imagem: Tayson Cordeiro/ João Pessoa – Paraíba

Te conheci no dia N. Um ato sobre o racismo. Alguém que quer falar muito de outro alguém, mas não apenas falar, mas sim de uma forma plural, de igualdade e dias melhores. Foi exatamente alí, ouvindo suas palavras que eu passei a te admirar. E o que é bom e bonito, a gente sabe, sempre é motivo de inspiração.

Nunca havia reparado tanto no seu nome, e agora ele surge de muitos lados. Mesmo havendo muitos iguais ao seu, eu nunca leio da mesma forma. Eu não sei como essas coisas acontecem, mas elas acontecem, não é?! Você só estava alí com um microfone em mão, falando sobre igualdade e dias melhores e eu ouvindo cada palavra sua e pronto: eu já queria ser como você quando crescer. ( Acredite eu ainda sou muito pequena ).

A vida finge que vai nos abandonar e traz alguém assim, com a alma sorridente e inteligente como você, só para combinar bem com o meu lado observador e me fazer entender que as pessoas pode ter o nome que for, apenas você tem o seu desse jeito que eu admiro muito. Não há possibilidade de me enganar ou fingir, sua representatividade é gigante. Eu, que quase nunca me enxergo em alguém, te enxerguei demais, nesses quase 18 dias de campanha.

Eu queria muito ter dito isso pra você, mas sou melhor escrevendo. Um dia, eu aprendo a falar. Se não for hoje, amanhã quem sabe. Se não for nunca ao menos saberei que existe esse texto aqui, com a assinatura dos seus olhos por te lido cada palavra, sem chances de cópias. Mas acredito que não há cópia para você nesse mundo, nem em mundo algum. Vou tentar te responder sem exceder o drama ou te assustar, tentando mais ainda ter você sempre por perto, porque eu amei demais te conhecer ( eu nunca vou me cansar de dizer isso ).

Não é você em uma parede rabiscada, numa história mal contada ou numa tristeza mal chorada. Eu sempre saberei quando for você, sua voz ecoa. Eu vejo suas marcas de alegria em cada lembrança que tenho da campanha, e da sua fala alta e alegre. E hoje você vai saber que em algum dia, eu parei para escrever sobre você, com ou sem nome.

Ah, já ia esquecendo. Obrigada por me confortar aquela noite. Eu nunca vou esquecer das suas palavras. Conheci muito de mim e do mundo ao me dedicar a sua campanha ( coletiva nossa voz ). Obrigada por ter acreditado tanto em mim ao ponto de espalhar minha escrita por aí.

Queria muito que todo mundo, algum dia conhecesse alguém tão transparente como você. Todos deveria conhecer uma Heloísa na vida. Mas você não, porque você eu já conheci.

Onde iam? Onde eu estava?

16:24/ João Pessoa, 20 de setembro de 2022

Iam devagar e sempre. Esse é o segredo da vida, não é? Devagar e sempre… Ainda hoje assisti um vídeo onde um senhor dizia bem assim sobre o que falaria para ele mais novo: ” desacelere ” .

Quem sabe estão juntos há 50 anos ou mais? Quem sabe se eles se conheceram ano passado? Amor de pandemia… quem sabe? Eu não sabia nada, mas reparei que ela ajeitou a gola da camisa dele e logo quando passavam por mim às 16:24 da tarde. Eu lembro do horário porque peguei no celular naquele momento só para ver se tinha alguma mensagem nova – não tinha – e me preparar para a foto.

Antes de passar por mim notei os dois porque ele havia parado. Olhou para o outro lado da rua, mas não falou nada. Ela só esperou ela voltar a andar, nem virou a cabeça para olhar junto, de repente já até se acostumou a ele parar volta e meia observando alguma coisa na cidade que fica na reflexão da própria cabeça. Na hora eu já sabia que sou aquela pessoa no relacionamento, a que para, fica encarando alguma coisa no seu mundinho e depois segue braço com braço.

Assim que passaram por mim eu me virei com o celular na mão. Essas cenas da cidade me ganham: o amor em meio aos prédios, carros, ônibus, pessoas, idas e vindas. Acho poucas coisas mais expressivas e bonitas, é o meu jeito de ver o mundo mesmo e não cair no lado ruim da força. Eu vejo amor no caos, porque ninguém passa ileso por ele ( o caos ou o amor, tanto faz ).

Tirei duas fotos para garantir melhor, essa até postei no stories no dia. Depois fiquei alguns segundos vendo eles seguirem o caminho e me perguntei: pra onde será que iam? Gosto de fazer essas histórias na cabeça, simplesmente porque fujo um pouquinho da realidade, e todo mundo precisa dessa fuga em uma terça – feira pela tarde fazendo campanha e um pouco cansada do dia. Voltei ao meu mundo quando minhas companheiras de trabalho me chamou , aí também lembrei que precisava seguir meu caminho na outra direção. Pra onde eu ia mesmo? Até esqueci.

E aí no esquecimento eu lembrei como era bom esquecer. Confuso, né? Tem coisas que só uma cena de amor faz. Eu nunca esqueço nada, não existe uma veia virginiana em mim que me deixe lá o esquecimento acontecer. Minha cabeça inventa idéias o tempo todo. E, de repente, pra onde eu ia? Fiquei na história deles: será que ela gosta de café com leite ou só de café puro? Será que eles ainda brigam por besteiras de início de relacionamento? Os dois pareciam ter pelo menos 80 anos… Será que ele acorda mais cedo que ela? Pra onde será que viajaram na lua de mel? E agora? Iam ao banco, padaria, visitar algum filho ou aproveitar a tarde que já se ia? Quem pede desculpa primeiro depois da briga? Ah, mas será mesmo que ainda brigam? Falando nisso… Será que se deixa de brigar por quem pisou na bola primeiro depois de um certo tempo? Será que os joguinhos ( tão chato e perda de tempo ) acabam em que fase?

Desacelere, dizia a pessoa no vídeo de hoje. E alí, naquela cena, eles caminhavam tão devagar, mais por limitação física do que conselhos de vida. Iam devagar e sempre, parecia muito bem saber o destino ( melhor do que eu ). Precisei abrir o Google Maps depois de meses… Deve ter mesmo muita coisa que a gente só descobre entre os segredos do coração e as lições do tempo.

Reencontrei meu caminho. É que não tinha sido fácil acordar nesse dia, me faltou um pouquinho de ânimo, mas lutei com o relógio. Eu tinha esquecido essa cena de dias atrás, mas relembrei agora, por voltar das 11h30. Deve ser o horário ou a mania de inventar histórias. Amanhã eu sei que vou brigar com o relógio de novo, mas tudo bem… Eu acelero, descacelero, enquadro o amor na fotografia e sigo aqui.

Toda cena vale um texto. Todo acaso vale um imaginário particular. Todo amor vale um tempo.

Tenho medo, aprendo, respiro e recomeço

Foto: Patrícia Nunes/ Nascer do sol

Venho descobrindo outros modos de fazer as coisas. Encontrando outras formas de sentir, planejar e até permitir que elas aconteçam sem eu controlar.

Eu tenho aprendido até mesmo a falar, o que já é imenso para quem normalmente só escreve, e a esperar as coisas que fogem de mim: nem tudo precisa ser tão imediato. Dias desses fiz uma tarefa especialmente difícil: aceitei que meu corpo não tinha forças pra correr de manhã e fui à noite. Nessa troca tão simples, sob algum custo, vi o nascer do sol de um jeito que só eu entendi. Eu precisava daquilo e nem sabia, mas não são assim as coisas que mais nos transformam?

Nessas de aprender eu tenho pensado nos outros. Cada um tem o seu tempo, e a gente não encaixa as pessoas na nossa vida como peça de quebra cabeça novo. A gente encaixa é um monte de peças com uma lasquinha aqui e alí, aquelas coisas meio quebradas que todos nós temos. Encaixa – se no caos, muito mais do que na calmaria: você faz daí o que dá, eu faço daqui o que dá e os acasos mais bonitos acontecem. As pessoas têm o tempo delas, e só fica quem aceita nosso relógio e vice – versa.

Já tem tanta coisa acontecendo por aí, eu não preciso complicar mais. Eu fico feliz só de ver alguns planos que vão se desenhando e saber que o hoje constrói o amanhã, mas que é isto: ainda tem o hoje ( ainda bem ). Um dia teve o ontem, aquele importantíssimo tempo que me ensinou a olhar para frente, levantar a cabeça e até virar um pouco para o lado, porque é por eles que acontecem os escapes da vida. É nele que as coisas/pessoas inesperadas nos encontram.

Eu tenho calma. Terminei meu café a pouco sem pressa, ficou até frio. Acompanhei com o pão que comprei hoje cedo, às 7h, porque felicidade tem cheiro, gosto e até rotina. Fiquei feliz de ver uma senhora passeando com um cachorro e o homem passando com o nascer do sol ao fundo. No caminho meu short rasgou, mas era muito cedo para reclamar.

Acordei bem, o que não quer dizer que estarei sempre bem, mas venho descobrindo o que é deixar a vida trazer uma surpresa ou outra. Ainda tenho medo demais para aceitar que as coisas boas acontecem a pessoas comuns como eu. Ainda tenho medo que tudo escorregue pela minha mão sem eu conseguir segurar, como nas cenas dos filmes. Ainda tenho medo de falar muito e sair tudo errado, mas trago boas intenções. Ainda tenho medo quando lembro de muitos dias no quarto sem querer abrir nem a janela. Ainda tenho medo de voltar para aquele quartinho escuro, frio e quieto, mas esse é dentro de mim. Ainda tenho medo de perder o tempo, o sonho, o jeito. Ainda tenho medo de me perder. Ainda tenho medo… Isso faz parte da vida.

Tenho aprendido a respirar, mesmo quando me afogo.