Onde iam? Onde eu estava?

16:24/ João Pessoa, 20 de setembro de 2022

Iam devagar e sempre. Esse é o segredo da vida, não é? Devagar e sempre… Ainda hoje assisti um vídeo onde um senhor dizia bem assim sobre o que falaria para ele mais novo: ” desacelere ” .

Quem sabe estão juntos há 50 anos ou mais? Quem sabe se eles se conheceram ano passado? Amor de pandemia… quem sabe? Eu não sabia nada, mas reparei que ela ajeitou a gola da camisa dele e logo quando passavam por mim às 16:24 da tarde. Eu lembro do horário porque peguei no celular naquele momento só para ver se tinha alguma mensagem nova – não tinha – e me preparar para a foto.

Antes de passar por mim notei os dois porque ele havia parado. Olhou para o outro lado da rua, mas não falou nada. Ela só esperou ela voltar a andar, nem virou a cabeça para olhar junto, de repente já até se acostumou a ele parar volta e meia observando alguma coisa na cidade que fica na reflexão da própria cabeça. Na hora eu já sabia que sou aquela pessoa no relacionamento, a que para, fica encarando alguma coisa no seu mundinho e depois segue braço com braço.

Assim que passaram por mim eu me virei com o celular na mão. Essas cenas da cidade me ganham: o amor em meio aos prédios, carros, ônibus, pessoas, idas e vindas. Acho poucas coisas mais expressivas e bonitas, é o meu jeito de ver o mundo mesmo e não cair no lado ruim da força. Eu vejo amor no caos, porque ninguém passa ileso por ele ( o caos ou o amor, tanto faz ).

Tirei duas fotos para garantir melhor, essa até postei no stories no dia. Depois fiquei alguns segundos vendo eles seguirem o caminho e me perguntei: pra onde será que iam? Gosto de fazer essas histórias na cabeça, simplesmente porque fujo um pouquinho da realidade, e todo mundo precisa dessa fuga em uma terça – feira pela tarde fazendo campanha e um pouco cansada do dia. Voltei ao meu mundo quando minhas companheiras de trabalho me chamou , aí também lembrei que precisava seguir meu caminho na outra direção. Pra onde eu ia mesmo? Até esqueci.

E aí no esquecimento eu lembrei como era bom esquecer. Confuso, né? Tem coisas que só uma cena de amor faz. Eu nunca esqueço nada, não existe uma veia virginiana em mim que me deixe lá o esquecimento acontecer. Minha cabeça inventa idéias o tempo todo. E, de repente, pra onde eu ia? Fiquei na história deles: será que ela gosta de café com leite ou só de café puro? Será que eles ainda brigam por besteiras de início de relacionamento? Os dois pareciam ter pelo menos 80 anos… Será que ele acorda mais cedo que ela? Pra onde será que viajaram na lua de mel? E agora? Iam ao banco, padaria, visitar algum filho ou aproveitar a tarde que já se ia? Quem pede desculpa primeiro depois da briga? Ah, mas será mesmo que ainda brigam? Falando nisso… Será que se deixa de brigar por quem pisou na bola primeiro depois de um certo tempo? Será que os joguinhos ( tão chato e perda de tempo ) acabam em que fase?

Desacelere, dizia a pessoa no vídeo de hoje. E alí, naquela cena, eles caminhavam tão devagar, mais por limitação física do que conselhos de vida. Iam devagar e sempre, parecia muito bem saber o destino ( melhor do que eu ). Precisei abrir o Google Maps depois de meses… Deve ter mesmo muita coisa que a gente só descobre entre os segredos do coração e as lições do tempo.

Reencontrei meu caminho. É que não tinha sido fácil acordar nesse dia, me faltou um pouquinho de ânimo, mas lutei com o relógio. Eu tinha esquecido essa cena de dias atrás, mas relembrei agora, por voltar das 11h30. Deve ser o horário ou a mania de inventar histórias. Amanhã eu sei que vou brigar com o relógio de novo, mas tudo bem… Eu acelero, descacelero, enquadro o amor na fotografia e sigo aqui.

Toda cena vale um texto. Todo acaso vale um imaginário particular. Todo amor vale um tempo.

1 Comentário

  1. Avatar de Esther Esther disse:

    Que bela observação e final de texto , “ toda cena vale um texto” .

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