Jornada

Foi uma jornada até aqui.

Agora, a estrada se abre. Há caminhos opostos que talvez venham a se cruzar lá na frente, ou não. Sempre tem o ” ou não”.

Foi uma jornada difícil. Já nem conto mais no calendário, porque não vale a pena esse tanto de dias e semanas e meses e anos. Não vale… O calendário não conta muito bem o que ficou, apenas o que foi. Ele não diz o que será, só o que passou. E quanto ainda tem do que já foi? Eu não vou saber responder, porque a vida nunca deixa ver o saldo tão simples assim.

Uma jornada que eu pensei muitas vezes que ia faltar perna para completar ( nem sei bem o que significa ” completar ” ). Uma jornada de quase abrir o peito e expulsar a gritos, pontapés e tapas. Mas não dá: na vida real a gente precisa ser mais sútil do que isso, e esse é o problema; nem sempre a sutileza acompanha a urgência do tempo de se refazer. A ilha deserta que eu precisei percorrer sem uma alma viva foi só eu e eu mesma, ninguém viu, ninguém ouviu. Eu não tenho fôlego pra fazer o caminho duas vezes.

Essa jornada teve muito desaprender para reaprender de formas novas coisas nunca vistas ou sentidas nesses 27 anos da minha existência. Foi muito querer também, é claro. No fim das contas, foi até muito desquerer, e acho que essa palavra nem existe, mas, pro meu bem, precisei inventar.

Eu ouço aquelas músicas antigas e elas não fazem sentido. Eu revisto as memórias e elas não se encontram bem no espaço/tempo, parece que desalinharam. Eu procuro vestígios, mas não sei onde perdi a chave da gaveta em que tranquei tudo.

Essa jornada também é bonita, preciso dizer. É necessário se colocar do avesso pra se ver do lado certo ( existe? ). Foi essa jornada que me pegou pela mão e disse pra explorar, tentar qualquer coisa, sei lá. Ir, ir e ir, até as certezas se revirarem. Eu fui, e fui pra caramba. As certezas se reviraram. E agora?

Parque Solon de Lucena/ João Pessoa

Amiga, senta aqui…

Foto: Elizabeth Bento / Praia do Bessa

Talvez você esteja precisando ouvir, então vamos lá, vou me encarregar de dizer – ou escrever, intérprete como preferir. Não garanto que vai ser amanhã ou até depois, mas vai ficar tudo bem, certo? Vai cair um tijolo aqui, uma construção alí, se duvidar, mas vai se reconstruir pedaço por pedaço.

Às vezes, a gente não sabe para onde ir direito, mas tudo bem estar perdido. Se quer saber, eu mesma tatuei, por exemplo, um coração humano, com uma menina lendo dentro dele. É assim que vou me encontrando, coração não tem mapa, nem adianta procurar pelas gavetas ou perguntar a mãe, ao pai, ao amigo ou a qualquer que seja. O caminho está alí, na mesma direção do destino, e só ele é quem pode te contar.

E o dia ruim, hein? Coisa horrível! Boleto chegando – Europeu não sabe o que é isso, o que me angústia mais ainda, então, se você está no Brasil, pelo menos há companhia-, É você atrasando o compromisso das 14h, das 15h e até da próxima vida, pra já economizar trabalho, é gente passando rasteira, é a chave que perdeu, é o analista que desmarcou, é a chuva que pegou, é a vida que, olha só, chegou. E você lá, toda-toda, plena, dona de si, tentando, disfarçando, sendo sua própria amiga, a chefe, a mãe, a filha, a namorada, a vizinha, até a inimiga, mas é assim: de tentativa em tentativa, fica tudo bem ( até os boletos, eu juro! ).

Brigar? Não adianta, não. A gente dá murro e murro na parede, mas só funciona pra sair com hematoma. Aliás, da vida a gente só saí é com hematoma mesmo, vai acostumando. Então, o que eu ia dizendo é que tudo bem tudo isso, viu? Tudo bem parecer que não vai aguentar, você paga os malditos boletos, conserta o que quebrou, cola daqui e dali a vida que vai acumulando.

Só promete que me faz um favor? Não vira um saco desse sem fundo! É, isso mesmo que você entendeu. Não vai acumulando sem dar uma selecionada, sem guardar alguma coisinha ou pessoa, sem se importar no fim das contas. Pra aguentar o peso, vale até uma dose de desespero, uma pintada de arrependimento vez ou outra, umas três colheres de sopa de replanejamento e um panelão inteiro de força de vontade. Ninguém normal aguenta o tranco, confia em mim. Ninguém, em sã consciência, saí ileso.

Enfim, vai ficar tudo bem. Você se reconstrói. Só não encontrou uma amiga pra dizer isso hoje, saiba que fica aqui o recado. Não é fácil, eu não vou te enganar. Diga – se de passagem, hoje eu desisti umas três vezes, mas tudo bem. Já que minha média é cinco por dia. Talvez a sua seja mais ou até menos. Talvez você seja feliz pra caramba e nem se dá conta. É tudo meio louco e descontrolado, entende? Você vive pra entender e entende que viver é só metade do caminho.

Vai ficar tudo bem, você mesma sabe disso. Toma um café quente e acaba esse dia. Só mais esse. Amanhã você começa de novo.

O verbo que fala

A vida não me sorriu assim de primeira, ou de repente fui eu que não vi (será?). Acho que me sorriu lá pela terceira, quarta, quem sabe até quinta vez. Deve ter desconfiado, porque eu também não sou muito de sorrir de primeira por me ver distraída pelo mundo em volta. Um dia eu encontrei as palavras… Juntei uma letra com outra, peguei uns livros com nomes de animais e quando vi lá estava: a vida me sorriu na primeira palavra que eu escrevi. Era meu nome, quase uma forma de me apresentar a mim mesma, e acho que foi alí que me reconheci no alto dos meus 06 anos.

Escrever é parte desse ” eu ” que ninguém vê, ou que eu gosto de tentar preservar comigo. Não é por mal, arrogância ou preguiça… É por instinto de preservação, coisa de quem aprendeu quem nem sempre os outros querem ouvir nossas palavras de coração aberto. E, vale dizer, as pessoas não precisam saber tudo sobre nós – e nós, não precisamos saber tudo sobre elas.

Escrever é esse lar que eu fiz pra mim, encontro e reencontro. É perder o rumo, traçar um caminho novo desconhecido, dar chance ao acaso. É me descobrir, mesmo quando pensava já ter me acertado. É recalcular as certezas, revisitar os sentimentos, reviver memórias .

Escrever é passado, presente e futuro. É quem eu fui mesmo antes de saber ler ou juntar as palavras. A primeira que aprendi foi mesmo o meu nome, a segunda foi o nome da minha mãe e a terceira foi ” amor “. Eu não sei explicar o motivo, talvez já estivesse mesmo escrito nas linhas do destino que aquela coisa de juntar letras ia ser a coisa que eu mais iria amar na vida, eu nunca questionei. Ou vai ver é só por ser uma palavra fácil.

Escrever é declarar o amor, mas também o fim dele. Fiz isso algumas vezes. Hoje é diferente, já penso que nem todo mundo merece um texto, seja de amor ou de raiva. Mas quando merece, há de merecer, bom… Aí é diferente. Escrever é dizer que, ei, olha aqui, olha pra mim, é sério, eu fico, se você ficar também. Vamos? Na hora que precisar eu falo, mas vê se cuida o que eu escrevo, porque é aí que eu sei me explicar no meio do meu jeito atrapalhado.

Escrever é curar traumas, ou pelo menos tentar. E também tem esse outro lado: escrever é mil e uma tentativas. São tentativas de entender, explicar, revelar, superar, criar, sentir, imaginar. É o meu universo que nunca dorme.

Escrever é terapia, foi a psicóloga que me disse, nem fui eu. Até então, eu achava que tinha alguma coisa errada comigo: eu poderia escrever o dia inteiro, e não é exagero. Chegava a ficar com dor de cabeça precisava escrever. Eu só queria parar um pouco, porque escrever também dói, e nem sempre eu queria doer. Às vezes o que eu precisava era silenciar e tudo ficaria bem. Até dosar esse controle demorou um pouco.

Escrever é fazer as pazes, como eu fiz com o meu jeito, entendendo que eu escrevo porque falar não é lá o meu forte. E não me entenda mal: eu posso discursar para várias pessoas, não tenho vergonha, estudei pra isso, mas não sobre mim, não sobre o que eu carrego aqui. Sobre isso eu só escrevo, e já é muito. Desde que aceitei o meu verbo ” escrever “, as palavras e a minha cabeça ficaram em paz. Hoje, eu consigo até respeitar quando as palavras surgem ou somem, deixo que tenham o tempo, o gosto e o modo delas. Às vezes, são ácidas, em outras passam rasgando na garganta, mas também sabem fazer carinho. São dias de sol ou de inverno, independente do que acontece lá fora, porque é isto: escrever é tempo de dentro.

Escrevo para fugir de mim e me trazer de volta. Me perdoe quando eu não souber falar, mas pode ter certeza de que vou fazer esforço para escrever.

Eu sinto, eu escrevo. A ordem dos fatores não altera o produto.