Eu me sento ao seu lado, olhamos para a frente, música ambiente, vento ameno no rosto.
Não precisa ser um destino paradisíaco, pode ser na sala de casa, qualquer mundo lá de fora cabe bem aí no fundo dos teus olhos. Eu poderia escrever uma música sobre eles, se eu escrevesse músicas.
Você escolhe o almoço, a bebida, eu escolho o destino, a ida. Você diz “sim”, eu digo “amém “. Você me chama de baby, eu te respondo ” meu bem ” – e meu bem é tudo, li dia desses.
Compartilho meus sonhos: quero ver a neve, a aurora boreal, ter uma casa com pátio.
O mundo é imenso e não é, te digo embriagada entre utopias e sensatez como me expresso há 27 anos.
Pega a minha mão, sorri de canto, como quem ri de eu sonhar, tanto, até dizer: vamos, nós vamos.
Tenho dias mais sóbrios de sonhos, pé na vida real: trabalho, pago contas, brigo por casa desarrumada – sou como todo mundo, tão comum. Traços os meus desafios dia a dia, não poderia ser mais simples e persistente. Gosto das manhãs, me arrasto nas tardes e volto a sorrir nas noites. Sonho à parte, horário bom é o fim de tarde do reencontro. Te espero chegar ou você me espera ir, ritmos ao nosso passo na vida.
Entro na dança dos teus olhos, quem poderia me previnir?
Dizer e não dizer: está tudo alí.
Você conseguiu ao menos entender?
Canto baixinho, quase sem perceber, aquele clichê: ” vamos fugir, baby “.
Lembro que fugir não é pra mim, nunca foi. Mesmo no mundo dos sonhos, eu gosto de pisar no real, e fugir não tem vez aqui.
Dou uma risada de leve, volto pra letra: ” pra onde quer que você vá, que você me carregue ”
Que eu queira ir, e você também. Que teus olhos me toquem e tua mão me leve.
Estou no meu inferno astral, dizem os astros. O mais engraçado é que depois de ter descoberto é que depois dele, vem o paraíso, o que é uma bela metáfora da vida.
Falando nisso, a vida tem sido minha amiga. Diz muito o fato de que não ando sendo inimiga dela. É um sentimento novo, diferente e que eu não sabia bem que poderia sentir, sem desconfiar.
Tem muita coisa dando errado também, antes mesmo do inferno astral. Tem erros (meus) , sobrecarga aqui e ali, um pouco de desordem, um pouco de saudade. Não é que tudo isso não aconteça, mas é que só se conserta com o caminho andando pra frente. É o fluxo normal, sabe?
Não quero ser mal interpretada: a vida foi boa comigo repetidas vezes nos últimos 27 anos da minha existência. O que mudou foi eu, minha desconfiança, aquilo que bate em todos nós sempre que a vida vai ficando interessante: ” é agora que tudo desmorona “. A gente fica pensando que existe uma pessoa todo hora na esquina só esperando pra colocar os pés e nos ver cair. Superar esse alguém à esquina, que por vezes, somos nós mesmo é um grande desafio.
Como disse a Anitta, agradeço a mim mesma por esses aprendizados. É claro que só a mim, sobretudo a mim. Não foi porque alguém falou algo, ou porque alguém me salvou. A história não é essa, no fim das contas nem combinaria comigo. Não foi algo ou alguém, fui eu, pura e simplesmente. Vai ver o cansaço de cada dia me fez enxergar, um passo de cada vez.
Eu fui dando uma chance pra vida me dizer que é no simples, na rotina boba, no sonho irreal (ou não) que a vida acontece que me pega pela mão e me mostra o mundo. O meu mundo. E o que tenho descoberto é que o meu mundo, estranho mesmo como podem dizer, é bom.
O meu mundo tem gente boa. Tem a minha comida preferida (cabeça de galo) de surpresa na terça-feira. Tem cama quentinha aos sábados ou também na Jurema, ou em algum bar por aí. Tem minha lista de livros que quase sempre consigo ler todas as manhãs às 7h15 tomando café da manhã. Tem pelo menos uma descoberta na semana, e a última é que gosto mesmo dela, a penúltima é que a língua polonesa é mais fácil que a que a húngara. Tem a coragem de dar ideias à vida sem prentensao de que sejam sérias. Tem casa antiga, com histórias novas me esperando para o futuro.
Que confusão… Eu gosto disso. Esses desencontros entre eu e o mundo me tira de qualquer zona de conforto e me impede de parar – virginiana que sou, com ou sem inferno astral, gosto de movimentos tanto quanto das rotinas. Não há medo por ser quem sou, a vida é minha amiga. Mesmo que ela traia a minha confiança, do chão não passamos (não ainda).
A todas as pessoas que disseram que a vida aos 27 era melhor, o meu muito obrigada. Ela não é só melhor, como eu sou melhor mesmo sabendo que ainda tenho muito para me consertar e me conhecer. E acho, que no fim, é por isso que a vida anda sendo minha amiga. Porque aprendi a olhar pra frente com carinho.
Vou driblando o inferno astral dia sim e dia também. Que ele me encontre. Pois vamos nos encarar olho no olho e dizer: é daqui para o paraíso.
Vai ver a gente só quer que o outro diga que sentiu saudade. Que envie mensagem numa quinta – feira às 11h da manhã depois de três meses de silêncio dizendo que lembrou do cheiro entre teu pescoço e o ombro quando deitou com outra pessoa. Dizendo que voltou naquele lugar onde vocês compartilharam a última cerveja. Dizendo que precisa te contar tudo ou nada.
Pode ser que nem seja amor é que a gente só quer saber o que ficou do que não ficou . É uma coisa quase egocêntrica de querer ter sido importante, sabe? Porque amor, amor de verdade, nem precisa disso, não tem esse jogo de ego – pelo menos é o que você vai dizer pra tentar se convencer.
A gente confunde amor com saudade. Ou é o contrário? Quer ouvir que o seu toque ainda é vivo, como se tivesse sido ontem, apesar de ter sido a 62 dias – sim, alguém está contando . É o não querer passar em branco. Tudo bem que eu não fui o grande amor da tua vida, mas me diga alguma coisa que eu fui. É mais ou menos isso, pra fingir que não é muito mais do que isso.
Será que qualquer um deixa saudade? Que coisa confusa.
Aquecer a cama qualquer um aquece. Convidar pra aquele bar legal com banda de forró maravilhoso qualquer um convida. Mandar mensagem todo mundo manda. É que aí tem você e aquela pessoa, você e aquele olhar confidente em que dois segundos bastam, você e aquela noite noite dormindo em paz naquele abraço, você e aquela coisa que não sabe explicar o que aconteceu.
Pode ser que o pretexto da saudade seja apenas uma desculpa pra fugir de afirmar o amor. Ou será que é ao contrário? Talvez seja por isso que se vai, ou talvez seja por isso que se volta.
Às vezes nem é amor, é só saudade. E o quanto de saudade é amor, eu não sei dizer.
Acordar foi estranho. À noite, antes de fechar os olhos e cair no sono, fiz uma daquelas brincadeiras com a vida de pedir algum sinal, uma coisa qualquer que indique algo. Normalmente a gente faz isso quando já até sabe a resposta. O problema é quando o sonho e a realidade se cruzam.
E foi no sonho que tudo aconteceu. Pode ter sido o tal sinal? Sim e não. Eu prefiro confiar na realidade, naquilo que tenho hoje: as palavras, os gestos, as ausências e a presenças. Peço sinais porque todos pedimos, gostamos de brincar com o destino. De vez em quando vou lá, abro o Google e procuro o significado do sonho, mas sou um pouco cética, prefiro ouvir o que senti. E esse foi o problema: eu senti.
Quando é a intuição que me invade, eu sigo, e talvez seja ela que eu venha negligenciando. É que ela também anda dizendo o que não quero ouvir; é hora de ir por um lado com sabedoria e ela insiste em dizer que é para o outro. Quem será que vai vencer? A rota ainda é confusa.
Desta vez, ao contrário dos outros dias, eu não fiquei muito presa naquela sensação de sonho. Bons ou ruins, eles está lá, ainda distante da realidade. Pensei nele uns cinco minutos entre aquecer o café e ligar o notebook descobrindo qual era a temperatura lá fora. Eu nem abri o Google pra pedir ajuda, pois não acredito que a resposta estará lá. E também não sei onde essa resposta se encontra, talvez no tempo.
A gente pede sinais, mas ninguém aprendeu a ler essa linguagem. Pede pra sonhar e depois não saber no que acreditar. Pede uma direção, mas quando a estrada se abre, fica imóvel. As certezas são imensidão difíceis de se nadar, é na dúvida que se faz o caminho, e, por mim, tudo bem, se o caminho existir.
Conforme sigo o dia, silencio mais o sonho. Há muito por fazer e sem motivos para reclamar. Eu sei que os problemas estão aí, só que há mais a agradecer pela frente – essa é uma parte, não o meu todo. Pensei no sonho, só mais uma vez ou outra, confusa, mas tranquila. Tem algo que ali que fala, fala, mas eu ainda não entendi. Ou entendi e não sei traduzir. Tempo. Há outras noites por chegar.
Entre o sonho e a intuição, eu ainda arrisco a coragem de caminhar no escuro.
Hoje eu não quero o texto que arrebenta por dentro, remexendo tudo. Eu não quero a música que fala da saudade, da solidão, do futuro. Nem o filme que faz refletir, questiona, deixa o que for no ar. Hoje, eu não quero nada no ar, só o que abraça, aquece, faz carinho. Eu quero o simples, o que funciona.
Eu não sei se dá para escolher. Quer dizer, na vida, em geral, não dá pra ser tudo tão selecionado assim. Se por algumas horas, só hoje, eu vou conseguir, não sei. Preparei uma playlist de podcast, uma de série e levo mais uma de músicas que me trazem alguns sorrisos em meio a memória – é bom, eu de ido que é bom. Não vou falar da lista de textos me esperando para serem lidos, porque esses fazem pensar, e pra agora não se encaixam.
Escrever é bom, mas o problema é que começo no raso e vou indo, não paro. Quando vejo, eu mesma já remexo tudo por conta própria. É o poder de curar e ferir que essa coisa de escrever me traz, o que não é ruim, mas que não me serve tão bem agora.
Mas esse não é um texto para o mundo, é só um monólogo, coisa bem minha. É pra fazer carinho, fico me relembrando. Hoje é isto: eu, que nunca sei pedir, só preciso de carinho, não do espinho. Não está funcionando bem, mas pelo menos eu coloco pra fora, passo o tempo, sei lá. Nem tudo precisa ser uma grande obra de arte ( não será ).
Essa hora da noite é um pouco difícil, principalmente porque não vou dormir tão cedo. Eu fico lembrando daquilo que não deveria e me perguntando o que me faz querer o que eu quero. São tantas respostas que eu até preferia não saber o que dizer, mas este é o problema: eu sei. Eu só queria descobrir o tempo certo de falar. Não é hora pra isso… Será que um dia vai ser?
Olho no relógio de novo. Eu preciso ir. A gente sempre precisa ir.
Hoje, uma amiga compartilhou comigo sobre o que o outro perde nós quando saí da nossa vida. Quando alguém vai sempre pensamos no que perdemos, mas o outro também deixa de ter algo. E aí a conversa se alongou: “o que o outro perde quando me perde?”, eu pensei.
Bom, não é minha habilidade de cozinhar, porque essa fica só para a questão de sobrevivência. Também não é minha capacidade de ser a pessoa mais efusiva do ambiente. Menos ainda alguém que seja boa com discussões.
O que o outro deixa de ter é a minha compreensão de ouvir que acolhe e ajuda a respirar. É o meu amor. Como amiga, são milhares de risadas que eu posso arrancar de alguém com minhas besteiras. Como namorada, é o carinho na mão até você dormir, a mensagem avisando que sua banda preferida marcou um show – e vamos -, o brilho no olho ouvindo sobre o seu dia. Os planos de vida, a presença. É a lealdade, em todos os casos.
Perde minha capacidade de te compreender antes de julgar. A minha felicidade de te ver realizando sonhos. O olhar atento, cuidadoso: você comeu? Eu chamo o Uber pra ti, espera aí, não se molha. Quem me perde deixa pra trás meu jeito de fazer piada de tudo com o sorriso sério.
Perde a parceria, não importa se quer ir ao bingo com pessoas de 80 anos ou na festa até 5 da manhã. Perde eu parando tudo pra te dar a mão quando o mundo lá fora dói. Perde aquela pergunta: isso é importante pra você? Então vamos fazer acontecer. Perde eu dizendo: quer que eu vá aí agora? Perde o meu tempo, que é sagrado.
Ah, não posso esquecer que perde o olhar orgulhoso da sua história – só amo quem eu admiro – perde o meu respeito de não querer curar a sua dor, porque é sua, mas de estar aqui pra dividir o peso a qualquer hora do dia.
Há pessoas que mutuamente, perdem-se, porque a vida é isso mesmo e nem sempre é menos bonita a história. Não é uma competição de quem perdeu ou ganhou mais, é apenas um jeito de lembrar quem você é. Quem perde talvez encontre pessoas e coisas muito melhores, não é sobre isso que estou falando- aliás, eu sou um tipo bem comum.
Nas pessoas em que eu sigo, sou tudo. Às vezes, isso até me custa um pouco, só que é quem eu sou, não é? Há muito tempo resolvi o conflito entre o limite do que devo fazer pelo outro e o limite do que é bom pra mim. Dos 18 aos 27 esse foi o grande aprendizado, e ficou o que aceito o que é a minha essência. Abraço o meu jeito e tentativas de ser pra mim e – depois – para o outro tudo que eu não gostaria de perder em alguém, por isso é tão importante de reconhecer aquilo de bom que perdem de mim.
É claro que o outro também ” perde ” – ou se livra – das coisas ruins, como o meu jeito muito reservado ou a mania de não saber pedir ajuda. São meus defeitos e cicatrizes que os outros não precisa lidar, e sorte deles – eu sigo aqui na luta.
Um dia li a frase mais bonita de Fernando Pessoa: ” se perder um amor, não se perca “. Acho que vale pra amores no geral, lugares, sonhos, coisas… tudo o que passa. O que vem e fica sempre vai encontrar o que todos vão sentir falta de deixar pra trás sem você.
Eu não sei o que o outro perde quando saí da sua vida, mas eu espero que você saiba. Com certeza, é sua parte mais bonita. Tomara que seja sempre assim: que o mundo não te arranque a sua melhor versão.
Eu tenho certeza de que alguma coisa aconteceu. Mas não, ainda não sei explicar talvez porque eu mesma não entendi. O que eu sei é que algo me diz “calma” e coloca tudo em prova essa minha tranquilidade tão característica que virou inquietação.
Quando alguém assim tem a calma abalada, é porque alguma coisa aconteceu. Eu não vou ignorar, mas também não vou parar, não faz o meu tipo. Hoje mesmo acordei cedo, mais uma vez, nenhuma novidade até aqui. Finalmente fui até a padaria mais perto que tem cheiro bom e comprei o pão novinho na primeira fornada do dia. Normalmente eu compro o do supermercado mesmo, que também é ótimo, mas olha só: cada dia eu acordo mais cedo e o supermercado abre mais tarde. Quem é o certo ou errado? Não sei, mas tem coisa que precisa de reajuste na rotina, até uma ida à padaria, e por mim tudo bem. Eu gosto de como eu aprendi a não me apegar aos hábitos bons de uma forma que me tire a chance de criar novos, porque a beleza deve estar mesmo em sempre se desapertar qualquer vida a mais, certo?
Faço todas essas coisas, das mais simples a mais complexa do dia, tentando não pensar em alguma coisa que aconteceu, afinal, eu não sei mesmo explicar. Mas está lá, vivo, sendo sentido, talvez até fazendo sentido. As coisas bem ao seu tempo, inclusive as explicações dela. A lição é aprender que o tempo do nosso querer/sonhar/desejar não é o mesmo do acontecer, e isso não precisa ser um problema. A sintonia é outra, a linha do tempo também, e nem sempre é cronológica. Aliás, sabia que eu fui lá, bem lá atrás para entender que, sim, alguma coisa aconteceu? Nós estamos em movimento… Quando colide? Vai virar o quê? Tomara que seja qualquer coisa que brilha, mesmo sendo só do lado de dentro. Aliás, teu lado de dentro andou sentindo? Alguma coisa aconteceu.
Eu tive essa certeza dias desses andando pela cidade mesmo, nem foi refletindo muito. Não teve cena de filme, nem nada, eu sou bem comum. Você vai até rir: foi quando sentei em frente a uma igreja para dar uma respirada leve e descansar uns dois minutos da caminhada. Fazia calor na rua, ninguém pode me julgar ( eu até orei e agradeci – não sei pedir ). E foi quando senti a calma e o silêncio daquele lugar, tentando decifrar os desenhos no teto ( anjos? Demônios? ), que admiti o óbvio: alguma coisa aconteceu. Minha cabeça andava com muito barulho, quem sabe o problema antes era esse. Quando tudo silenciou, eu percebi.
Tenho pensado em cortar o cabelo há quatro dias, mas sei a briga que vai ser quando minha mãe ver o que eu fiz com o cabelo que ela ama mais do que eu. Só deu pra comprar o óculos, porque já vai mal o sol no olho e a inflamação por aqui, é problema crônico. O pão quentinho pela manhã ainda consigo, não abro mão ( agora na padaria mesmo , porque, você sabe, o horário e tal ). Vejo todos os dias a vizinha passear com os três cachorros, o trem passar e os moleques jogar bola no pátio do colégio. O cotidiano é tão bonito, eu queria até te mostrar, sei que você poderia ver poesia pelos cantos. Há vida a passar.
Eu vou dar tempo, é o que minha intuição manda e ela não costuma falhar. Acontecer é c-o-n-s-t-r-u-ç-ã-o, foi o que eu aprendi durante toda minha vida. Vou deixar o querer e o acontecer se alinharem, quem sabe o cotidiano muda mais uma vez e a janela vai ser tão bonita quanto a janela que vejo agora. Os frames da vida não me cansam, mesmo quando me atropelam – e, vá lá, vez ou outra rola uma dessas.
Alguma coisa aconteceu. Uma cigana me parou na rua esses dias e ela me confirmou: sim, aconteceu. Mas olha que curioso: ela também me disse que também não conseguia entender a mensagem, só que tinha mesmo uma mensagem. Você me fala? Pode escrever, na verdade. Sei que tem sofrido com insônia e indecisão, então se quiser, aproveita uma hora dessas em claro ( eu com certeza não terei dormido ou já terei acordado ). Faz como quiser, mas me fala: por aí, alguma coisa aconteceu?
Fico feliz curtindo a retrospectiva de todo mundo. Um compartilha as fotos dos meses de cada ano, outro faz reflexão e tem até quem faça vídeo. Eu gosto, porque é bonito ver as pessoas curtindo a vida.
Mesmo assim, preciso dizer: não vai ter retrospectiva por aqui, não é porque foi ruim, pelo contrário: esse ano vivi ao extremo da intensidade. Realizei sonho que passei a maior parte do tempo em busca, senti até o último fio de cabelo, superei mal resolvidos de anos, aceitei minhas limitações, conheci lugares novos, pessoas maravilhosas, fiz muito as pazes comigo, encarei sem medo o que vai além de mim. Não faltou o que contar.
Agora nesse ano sem fim, desse dezembro sem fim, não sei que força se tem para retrospectiva. Me deu quase uma tontura quando pensei em procurar uma foto de cada mês e ” viver ” tudo de novo. Vocês que ainda conseguem, eu admiro ( e adoro, continuem ).
Parece que foram uns cinco anos em um só. Logo vou olhar e dizer: ” mas aquilo foi em 2022 também? Caramba! ” E é bem isso mesmo: caramba, 2022, você fez e aconteceu, ein? Me mostrou caminhos para abrir, mas também portas para fechar. Mas riso, do que choro e muita lição para digerir. É que ainda não deu para assimilar tudo, então a retrospectiva vai ter que me desculpar.
Às vezes, parece que 2022, foi uma grande via alta de velocidade com tudo meio desgovernado. Não faltou estrada para percorrer, mas às vezes faltou perna. É por isso que 2022 foi bom, embora não tão amigo.
Não peço que o ritmo pare e sei que viver sem lições é coisa de quem não se joga e nem vai crescer. Eu tenho fobia de pontes, mas não deixo de cruza – las. Deu pra entender?
Se você me perguntar se realizei meus objetivos de 2022, vou dizer que não sei, porque não lembro onde coloquei a lista. Sei que muita coisa deu certo. Eu vou parar de me cobrar coerência e seguir nessa linha. Não vai ter retrospectiva porque já coloquei um pé e meio em 2023, não preciso viver tudo outra vez. Cada memória tem seu canto. Cada passo deu a sua direção – é pra frente sempre.
Vamos lá, 2022, passe essa bola logo para 2023. Eu não faço a mínima idéia do que vai acontecer, e isso não é um problema.
Ah, e a lista dos próximos objetivos? Dessa vez é na cabeça e no coração – nunca vi lugar melhor.
Eu queria falar de sonhos e como é importante recuperar alguns, ressignificar outros e criar novos. Acontece é que, na contramão da vida, a gente costuma pegar uma via e os sonhos outra. Vai acontecendo quase tão natural quanto fazer aniversários – e piora com cada ano a mais.
Resolvi colocar tudo em dúvida. Quer dizer, tem duas ou três coisas que são muito claras, não precisam disso, mas o resto? O resto é hora de perguntar: e aí, isso aqui vai ou fica? É muito parecido com limpar o guarda – roupa, mas deve ter uns três anos que eu não reagia assim.
Talvez seja resultado do tratamento; reagir é o ponto focal, e parece que existe alguma razão meio química que me falta nessa parte, mas venho tentando compensar e descobrir onde ela ficou pra trás – não sou causa perdida, amém. O processo se justifica, ainda que nem sempre as armas agradem.
Por ora, deixei minha playlist de Marília Mendonça tocando a tarde toda – ela sempre teve um ponto de vista lindo sobre a vida – e terminei o dia escrevendo esse texto aqui, que não me exigiu muito. Fiz gestos sutis, porque é neles que acredito. Olhei os sonhos com carinho e deixei cada um no seu devido lugar. É desse ponto pra frente que começa aparecer as respostas. Alguns vão ficar pelo caminho, mas é assim que outros vão dar certo.
Não fiz nada disso porque me arrependi de algo, nem é por ser final de ano. Se fosse abril, tudo iria acontecer do mesmo jeito. Esses rascunhos são parte disso, a voz que não deixo sair quando não posso apressar o relógio. Silenciar no mundo lá fora é falar muito aqui dentro, tem sido esse o desafio pra escutar o que causa inquietações de um futuro.
Ando desviando de armadilhas, buscando reagir nas partes de mim que já sabem o caminho sem precisar de atalhos. Vida pra sonhar, sonhos pra viver – alguma coisa nisso faz sentido.
Eu ia escrever pra você não me desapontar, mas será que a gente pode colocar esse peso no outro? Eu mesma vou me/te desapontar, seja porque não sou tão fã de esportes radicais ( mas me chame pra uma trilha ) ou porque gosto de passar horas em silêncio ( não é regra, é costume ). Ou quem sabe eu vá te desapontar porque não sei esconder sentimentos e nem alongar discussões.
Não falo apenas da minha personalidade ou gostos. Eu vou te desapontar porque não sei adivinhar o que espera de mim. E não vou responder o que você imagina naquele sábado às 20:47 quando me pergunta indiretamente algo que você quis saber. Eu vou te desapontar porque talvez perca a hora de pedir desculpas por qualquer coisa ou insista no caminho errado. Ah, eu insisto muito no caminho errado, e isso também me desaponta.
Uma vez, ouvi que os outros vão embora quando não tem ” desafio “, como se essa coisa de se dividir fosse uma partida de Uno. Eu simplifico, mas não é o caminho. Esse foi o tema na última terapia. ” As pessoas gostam do que é difícil, mesmo se for ruim, e eu sou normal. ” Eu não estava lamentando, eu estava constatando, e a terapeuta perguntou se isso não era baixa autoestima. Eu expliquei que não, que até acho legal, mas o ser humano tem dessas ( inclusive eu ).
É isto: eu vou te desapontar porque sou normal. Já lutei pra ser muitas coisas na minha própria pele e descobri que ” normal ” caí bem. Me sinto tranquila, dentro-do-possivel-coisa-e-tal. Na minha normalidade, até me balanço às vezes pra sair algo novo qualquer, mas bem lá dentro, não de fora – é como eu acredito nas coisas. Eu vou te desapontar porque quando você morar nesse meu canto silencioso, porém acolhedor, talvez sinta falta do ” desafio “. O mais emocionante em mim é a calma, vai entender.
Eu não vou te contar a minha lista de fracassos pra parecer mais interessante nem complicar teu modo de ver a vida pra confundir. Eu não vou ser qualquer coisa além de mim, o que já me dá muito trabalho. Não posso colocar em você pesos que são da minha história, e nem pesos que não sou capaz de carregar. Aproveite esse passe livre pra me desapontar; isso é o que eu já espero ( de você e de mim ).