Uma carta para José Salustiano (chapéu amarelo)

Dedicado a um dos melhores homens que já conheci.

Nem todo mundo vai entender sobre esse texto de hoje, não importa; a ordem dos fatores não altera o produto.

Hoje é a última Jurema do ano, eu queria deixar aqui nas palavras algumas coisas, para eternizar o que já me é muito eterno. Essa carta é para alguém que de alguma forma, vai ser o primeiro a ler; essa carta é para o senhor (nunca chame ele de você), chapéu amarelo.

O senhor é o eu que deu certo. Não é que esse eu de hoje não tenha dado, é que ele resulta do que fui ontem. O senhor é resultado do que sou hoje – a responsabilidade fica maior.

Deixa eu te contar uma coisa que até isso o senhor já sabe: o senhor me encontrou em muitos desistências, e no fim abraçou a insistência. Ou foi a coragem? É isso que dizem sobre ti, não é? O senhor insiste até o fim, e ainda um pouco depois dele. Alguns vêem como defeito, outros como qualidade. O desafio é não cruzar a linha do próprio limite, não se perder sem rumo por aí, porque o mundo não dá chance. E que o senhor sempre me insistiu em sentir.

Vou te contar outra coisa, mas essa com certeza o senhor também já sabe. Sentir dá muito mais trabalho do que pensar. De primeira até parece que não, mas dá. E o senhor sempre ensinou que o amor tá na nossa cabeça, tudo vem de lá. E hoje eu consigo entender melhor quem quer o quê, quem te tira o quê, quem entrega o quê, quem vale o quê – e sabe especialmente o quanto vale. Fica melhor quando a gente entende, não fica?!

Ontem eu não sabia como eu iria acordar hoje, mas fiz a única coisa que o senhor me ensinou: esperei. Agora, consigo até fazer planos para o amanhã. É, meu velho, parece que o passarinho alguma coisa realmente aprendeu.

O senhor é o eu que me ensinou a não chorar mais tão fácil porque qualquer motivo, e que eu encontre bons motivos pra chorar. É o eu que não carrega mais a ilusão (mas pense num passarinho teimoso), que se desprendeu um pouco da saudade (aquelas todas). É o eu do futuro que agradece o que já viveu até aqui, firmando cada pecinha desse mosaico meio torto, mas do jeito que é e ponto. O eu que se encaixa no mundo de peito aberto, mas nem sempre confiante. Hoje será a última Jurema do ano, mas ano que vem nos veremos novamente, e isso me conforta.

O senhor é o eu maior do que eu, o que alimenta minha esperança. O senhor é o que não cansa de tentar, de plantar, de colher, de sentir. De ser.

Te amo.

Do seu passarinho que ainda não aprendeu voar. 💛✨

Esquecimento.

Aconteceu de novo.

Você já teve a sensação de que em algum momento você caiu no esquecimento? Não sei dizer o porquê mas isso acabou de cruzar os meus pensamentos.

Será que me tornei uma foto apagada pelo tempo?

Você ainda me enxerga?

Ainda existo?

Me desbotei?

Não sei mais o que pensar.

Recentemente andei de mãos dadas com a escuridão e me foi o suficiente, dias atrás te vi em uma foto com alguém em algum lugar e isso me tirou dos eixos indevidamente.

A sensação de não pertencer a nada já cruzou a sua alma? Talvez eu não esteja colaborando também, porém, recentemente, as coisas ficaram mais difíceis, sinto que estou me esforçando muito e indo além só para me sentir bem.. você jamais entenderia, é muito confuso.

Eu havia construído apenas um pedestal (é errado, eu sei) para uma pessoa, porém o destruí há alguns dias e ainda continuo sentido esse vazio que ironicamente me preenche!

Isso sempre acontece em dias de chuva, parece que tudo fica mais intenso, o vento gélido no meu rosto enquanto caminho pelas ruas da cidade, o ato de respirar fundo, as palavras que saem da minha boca, exatamente tudo. Tento mentalizar que está tudo bem comigo e que talvez essa sensação seja passageira, contudo sempre isso me retorna.

As pessoas começaram a me olhar de modo diferente novamente, como se eu fosse a maior escritora do mundo (eles não imagina a dor que é ser, às vezes) me expresso e ainda assim é como se eu estivesse muda, percebo que elas me notam, e, apesar disso, não me compreendem.

Enfim, caso eu note que algo começou a dar errado tirarei fotos, espalharei breves notas por toda a casa e deixarei uma playlist tocando enquanto os ventos uivam lá fora.

Não quero tropeçar..

E cair perigosamente..

No seu..

Esquecimento.

A garota do ônibus

Me falaram que o nome dela é T(h)ainá. T(h)ainá, esse texto é sobre você.

Me acostumei a fingir que as pessoas não existem, me acostumei a pensar que aqueles que não são declaradamente amigos na minha concepção são apenas silhuetas borradas na minha visão periférica.. eles não são importantes e provavelmente o sentimento é recíproco.

A diferença está que eu sou observadora demais, logo, tudo importa para mim. Todos os detalhes são significativos, contudo aprendi a filtrar aquilo que atravessa meu campo de visão, é incrível como algumas pessoas servem para quebrar os pequenos encantos da vida.

Mas hoje… Bem, há dez dias (sim, estou contando) como é que se deu esse momento mesmo? Só de pensar sinto calafrios, há alguns dias, venho pegando ônibus, foi quando eu a vi pela primeira vez e ela foi capaz de quebrar o muro que entrepôs entre mim e os demais, mas quebrou suavemente, como se tivesse armada com uma maleta de rosas.

Entrei no ônibus e ela subiu logo em seguida, uma mão segurando a barra de ferro e a outra no celular, parecia estar com sono. Ela sempre está com uma calça preta, uma camisa longa verde. Ela parou bem perto de mim, senti sua delicadeza como uma bola de cristal. Ela estava com seus fones de ouvido enquanto fitava o lado de fora do coletivo, cabelo preto mediano, então eis que ela (fugit) me encarou… Foram três segundos, mas foi como se ela tivesse me levado para outra dimensão em que vivia e lá três segundos eram seis minutos.

Quando o ônibus esvaziou, ela estava sentada em uma cadeira, de lá eu a observava, tão quieta, tão cheia de vida, tão preocupada apenas consigo mesma.. que tipo de música ela estava escutando? Quem é ela? O que ela procurava lá fora?

A inquietude da sua existência disparou meu coração de modo muito instantâneo, logo eu que não me deixo levar pelas coisas, pelos outros, pelas palavras. Por um momento me perdi nos meus pensamentos e quando me encontrei ela já havia descido e alguém havia tomado seu lugar. Quando foi que ela desceu?

Tainá, Thayná, Thainá, Tayná. Não sei como se escreve seu nome. Mas ao olhar em seus olhos vi que era uma pessoa quase solitária, não do tipo: ” por favor, venha aqui e me salve”, mas do tipo: “estou aqui porque eu quis assim”. É como se ela estivesse no controle das coisas, no controle do seu mundo.

É engraçado que no meio de uma cidade cinza é possível que alguém te desperte uma nuança de cores e múltiplos sentimentos sem muito esforço.

Para onde ela foi?

Amanhã a verei novamente.

Disk consciência pesada

sobre uma ligação no meio da noite

Não me recordo sobre o quê especificamente eu estava sonhando, mas era algo bom… usar o era nessa frase significa muita coisa, afinal, eu tive o desprazer de escutar o toque do meu celular durante meu sonho.

Eu sei que de alguma forma ou de outra você vai chegar aqui, então vou deixar bem claro que você simplesmente desmanchou o melhor sono que eu tive em dias.

Lembro de ter revirado meus olhos dentro do meu próprio sonho (muito obrigada por isso) antes de me transportar através daquele vórtice que interliga o mundo dos sonhos e a realidade.

Acordei entorpecida, me revirei na cama umas cinco vezes esperando aquele som cessar, o que não aconteceu. Me levantei aos tropeços, bati meu dedinho na quina do armário, xinguei e peguei o celular.

Quando vi que ainda era 3:42h eu sabia que era você mesmo antes de atender, aliás, ligação de um número bloqueado nem merece meu respeito. Atendi a ligação só para cessar aquele barulho.

– Oi? – disse eu ainda sonolenta

– … – do outro lado ouvia – se vozes e uma música muito alta no fundo.

Revirei os olhos (agora no mundo real) e finalizei a ligação, porém você me ligou de novo e eu só tinha duas opções, ou eu jogaria meu celular pela janela ou atenderia (te juro que a primeira opção soou maravilhosa na minha cabeça), como você não vale tanto assim resolvi atender.

– Oi? – disse eu mais nervosa

– tudo bem com … você? – perguntou notavelmente bêbada.

– claro, como eu poderia estar mais feliz com uma ligação sua às 3h da manhã? Era tudo que eu precisava! – respondi seca.

– você não muda, né?! Eu amo tanto você…

– claro que você ama, você até sustentou uma grande mentira, e apareceu assumindo sua esposa, se isso não é gostar de alguém, então eu não sei o que é. – retruquei

– você entendeu tudo errado .. é de você que eu gosto.. sério.. posso ir aí? – disse quase implorando.

– aqui você não entra mais, aliás, acho que você tem uma casa, chame um Uber e vá pra sua casa. – falei ainda mais áspera.

– acho que não tenho mais casa..

– nossa, por quê será?

Então desliguei o telefone.

Não me levem a mal, ela pediu por isso… Quem vê até pensa que é inocente, vítima de um amor frustrado, mas só eu sei tudo que passei por um amor bandido desse. E não me venha com esse olhar, não foi você que teve que atender a chamada.

Minutos depois o celular tocou de novo e eu tomei a decisão errada (óbvio).

– fala, o que é?

– eu não mereço perdão? é isso? eu tô errada em ter te amado? o que eu fiz? eu gosto de você.. fala alguma coisa.. me perdoa?

– hummm, deixa eu ver aqui… – Então desliguei.

Ela estava quase chorando quando misturava as frases em uma só. Eu não tenho mais paciência pra isso.

O telefone tocou mais três vezes antes que eu finalmente o atendesse pela última vez.

– eu só queria dizer que… – Ela começou a falar e eu a interrompi de imediato.

olha, sério. eu não aguento mais essas tuas recaídas, essas tuas frases ensaiadas, essas tuas carências insuperável e pior, esse teu dramalhão desnecessário. É toda vez a mesma coisa, você chega, acha que faz e acontece, enche a cara de cachaça e quer voltar. Se esse teu amor de papel não funciona nem contigo mesmo, o que te faz achar que vai funcionar comigo? – Falei, cheia de raiva.

– …

Ainda mais silêncio..

– tá bom, Drizi. Eu não vou mais te incomodar não.

– ainda bem que você entendeu, agora vou dormir. aproveita esse teu tempo sozinha e leve tua consciência pesada para dar um passeio, vai que um dia vocês se entendem. Não que eu me importe, claro.

Finalizei a ligação e desliguei o celular.

Qual o problema das pessoas, sério? Todo mundo quer um lugar para voltar, um lugar seguro e longe da tempestade, contudo não faz nada para merecer. Aliás, me sinto uma pessoa mais leve depois te ter superado tudo isso sozinha, ao menos alguém se benefíciou com toda essa palhaçada.

Olhei para o relógio, marcava 4h49.. droga, só tenho mais 3h11 de sono antes de ir trabalhar, uma ligação na madrugada não é para qualquer um.

Mas há um ponto muito positivo acima de tudo, serão 3h11 de sono sem qualquer peso na consciência, meu travesseiro agradece.

Um luxo para poucos.

Muito poucos.

Ninguém perguntou por você

sobre o climão que é gostar de ti.

Eu já te falei que a minha consciência tem uma forma corpórea? Ele é um cara insuportável que mede 1,75 de altura e vive se interpondo entre mim e as minhas atitudes. Feito dono da verdade, ele sempre me diz o que devo ou não fazer… mas hoje não…

Resolvi amarra – lo e amordaça – lo num a cadeira no canto do meu quarto só para ter coragem de terminar esse texto, ele é só para você… Isso, você mesma… Ué, franziu o cenho por quê? Ah! Pronto… Vai me dizer que não sabia?

Hoje me encontrei com vários amigos de trabalho e eu fiquei esperando a hora certa pra falar de ti, já estava tudo ensaiado, na ponta da língua… Suei feito uma condenada esperando minha deixa, contudo ela não veio. Meus amigos falaram dos seus romances, minhas amigas falaram os caras que surgiram desde nossa última reunião e nada do assunto cair em mim.

Fiz-me desinteressada e tentei trazer o assunto pra mim, contudo sem sucesso. Joguei no ar que estava a fim de alguém, te citei e nada… Juro que tentei, mas ninguém perguntou por você.

Pensado bem, será que você sabe? Não, não pode ser… Claro que você sabe, mas na cara do que eu deixei as coisas, impossível.. ou será que não? Na minha cabeça estava tudo certo, todavia estou sempre na dúvida contigo.

Você sempre me deixa sem jeito. Eu tento, tento e tento mais um pouquinho, mas não adianta, você sempre está um passo para trás quando se trata de mim. Quem você pensa que é com esse cabelo ( hora cacheado, hora liso )? Hein? Dona do universo? Pois bem, talvez você seja mesmo. Prazer, Universo.

Lembra da primeira vez que te vi e você disse que tinha me stalkeado em todos os meus Instagram possíveis , e eu disse que era “60/40” e você começou a rir? (Você nem lembra, mas eu lembro).

Sabe esse 40? Ele é todo seu. Se eu pudesse eu me despejaria numa taça de vinho com a esperança de tocar seus lábios. Seria eu capaz de agradar esse paladar?

Pelo jeito eu sonhei acordada contigo (de novo). Sério que não teve sorriso? Não teve mão na cintura? Não teve meu corpo no seu? Nem mesmo a minha mão na sua? Putz…

No fundo eu sabia que nem essa amizade daria certo , mas olha, estamos de parabéns… Você por ter bancado a dissimulada, eu por ter dado corda. O que mais me espanta é sua forma de agir, a acidez em pessoa. Porque não me disse que não estava interessada? Espera um pouco, será que criei coisas onde não tinha?

Não foi contigo que eu dormi ontem a noite? Será que eu falei teu nome ao invés… Aí não, foi sonho. Como você consegue estar em todos os lugares? Eu passei por você hoje mais cedo, ou foi apenas uma visão? Será você meu karma?

Irônico como você está em todos os lugares e mesmo assim nunca me nota. Tanta coisa é para ser e não é, ao passo que tanta coisa deveria acontecer e não acontece. Eu quero somar, entretanto você só pensa em subtrair.

Minha consciência está tranquila e não o culpo mais, na verdade a culpa é toda sua, é muito climão gostar de você, chega ser surreal (ou devo dizer, ilusório?). Ok, justo, tenho minha parcela de culpa, mas olha, eu já pedi desculpa. E você? O que fez?

Quer saber? Eu não te quero mais.

Mas se você quiser…

Eu quero.

Por você ninguém perguntou, mas eu queria tanto, tanto que teu nome surgisse.

Desordenada.

Sobre crises de ansiedade

Ilustrado por Rodrigues

Não sei exatamente em que momento eu te encontrei, contudo posso afirmar com toda certeza que algo irá mudar (ou será que já mudou), seja você ou o momento que você está vivendo, seja algo feliz ou triste, desanimador ou esperançoso, isso vai mudar.

Para o nosso bem ou mal algumas coisas simplesmente estão fora de cogitação, tipo controlar alguma coisa incontrolável, mas não te trouxe aqui para falar sobre isso… Notei que você andou afetada demais pelas centenas de mudanças que aconteceram repentinamente.

E no meio do caminho, sua mente não foi o melhor lugar que você poderia estar, porém isso não é algo que seja passível de mudança.

Uma infinidade de pensamentos cruza sua cabeça diariamente e a maioria deles não faz sentido (e você sabe disso), porém todo esse desgaste involuntário te consome por inteiro.

Como se não bastasse todo caos que se forma aí dentro, há também o resto da sua vida, que acontece do lado de fora, e você tem que lidar com todos os poréns que você precisa passar diariamente.

Repentinamente você sente que não é mais feliz, e não sabe exatamente o por quê… Só que nossa mente vai criando uma série de justificativas.

E aqui estamos.

Vamos pular aquele papinho de “um dia vamos rir disso” porque agora dói ( e muito).

COMO VOU SAIR DESSA?

Não serei hipócrita, às vezes tenho a impressão que é o fim mesmo, por exemplo, acontece um problema na minha vida e eu tenho a impressão de que eu não vou conseguir resolver e que vou falhar.

É como se fosse o meu fim, mas como pode acontecer se ainda estou viva?

O verdadeiro problema é que somos atropelados a cada segundo pelos nossos próprios pensamentos e quando se soma a ansiedade nós verdadeiramente nos perdemos.

Não parece, mas estamos nos conhecendo mais a casa baque que levamos.

Nenhum sofrimento ou felicidade é intenso demais ao ponto de durar para sempre.

RESPIRE FUNDO LITERALMENTE

São tantas coisas não ditas, não programadas, não imaginadas ou compreendidas que fica difícil saber se conseguiremos voltar pra casa no final do dia.

Não posso prometer que a desordem de pensamentos passará ou que seus níveis de ansiedade diminuirá, mas posso te dar motivos para não desistir de você mesmo.

Sempre que possível feche os olhos, respire fundo em silêncio e tome uma iniciativa de cada vez (faça exclusivamente por você).

Talvez doa.

Muitas atitudes te trarão dúvidas. Mas é o melhor que você pode fazer por si mesmo.

RESPIRE DE NOVO

Aceite que cada um tem um modo de lidar com as crises (e você te o seu). Pare quando for possível e veja se as coisas tem o tamanho que aparentam. Mas jamais afugenta seus pensamentos, os deixe fluir.

Sentir as coisas é bom demais, não deixe que ninguém te diga o oposto.

Sobreviver em um mundo doente quando se tem um coração grande demais é um ato de coragem.

Reverso – Calem os elogios

Essas palavras vieram de uma realidade completamente paralela à nossa, onde o certo e o errado, amor e ódio, felicidade e a dor, se misturam.

Mas não se preocupe, tudo isso jamais aconteceria por aqui.

Alguém faça com que isso pare de uma vez por todas!

Meus olhos giram nas órbitas, me perco nas palavras, minhas mãos suam e meus pensamentos aceleram.

Por que os elogios me machucam tanto?

Ontem, Matias elogiou minha roupa, e eu não soube o que falar, mesmo que um simples obrigada resolvesse. Anteontem disseram que meu cabelo era bonito, e eu desconversei.

Não há novidade em mim. Deve ser algum truque.

Querem que eu abandone as muralhas do meu castelo para, em seguida, me machucarem.

Ainda não riram de mim, mas irão, eu sei que irão.

Basta eu notar, contra a minha vontade, que sou o assunto da vez, que me dá uma vontade imensa de fugir. Como é possível que as pessoas enxerguem algo que eu mesma não sou capaz de enxergar?

Eu moro aqui dentro e as coisas não são desse jeito. Por aqui é tudo reverso. Por isso, não acredito em ninguém. Em meio a esses gracejos, haverá algum reverso, tenho certeza.

Por favor, calem todos os elogios…

Algo me diz que não os mereço. Não sei quando começou. Mas, e se for verdade… Viu só?!

Não posso baixar a guarda.

Preciso me manter em alerta.

Sempre em alerta.

Sempre.

Sensação Culminante

sobre perder algo que nunca se tem

Para conectar essas palavras foi necessário viver uma sensação dolorosa

Deu certo. Uma pena.

Parecia uma pequena poça de água deixada pela chuva, mas quando meu pé encostou na superfície, fui sugada para aquele pequeno oceano de sentimentos.

Em meio a ausência das palavras, hoje eu me afoguei. A visão ficou turva, as mãos ficaram dormentes e, de repente, vazio.

Muito vazio e frio.

Em meio a toda essa escuridão, fui atacada por pensamentos impiedosos sobre a sua partida. Na verdade, para você partir seria necessário que antes de mais nada você viesse ao meu encontro.

Como posso temer com tanto pavor a partida de alguém que tão pouco fez por mim? Como cheguei nessa posição tão complexa por alguém que sequer deu um passo na minha direção?

Eu não dependo emocionalmente de ti.

Você não possui as características que eu considero as mais incríveis. E o pior, você nunca fez nada de tão carinhoso por mim.

É uma merda ser a pessoa que sempre se importa mais.

A única coisa que me faz despertar desse transe é um sentimento Culminante que já cansei de ignorar.

Tambores rufa no meu estômago toda vez que lembro da sua partida. As batidas vão aumentando quando penso que eu poderia fazer alguma coisa para mudar isso. E o som se torna inaudível quando penso no vazio que restará ao redor.

Veja que loucura!

É possível duplicar o silêncio existente?

Você não me pertence. Desejo e posse são coisas distintas. Te prender não é sequer uma opção. Desejo que você seja livre, mesmo sabendo que você é presa a alguém.

Respiro fundo e sigo adiante como se uma violeta cartase não tivesse me acometido há pouco.

Cada pensamento a sua partida me causa esse apogeu extremado, contudo, isso não passa de uma grande ironia.

Afinal você nunca veio pra ficar de corpo inteiro.

Nunca esteve e nunca estará.

Pelo menos é o que gritam as suas ações.

Seria uma grande tragédia

Entramos no elevador e começamos a rir porque você tropeçou e apertou todos os botões de uma vez.

Olho para o espelho e procuro seus olhos e você faz o mesmo comigo.

Minutos depois, estamos no seu andar e caminhamos com calma pelo corredor para não acordar os vizinhos, pois já é tarde.

Você abre a porta e eu fecho com o peso do seu corpo, quando te puxo para um beijo inesperado.

Sinto o gosto do álcool quando minha língua encosta a sua.

Seu gosto é doce e o meu é um pouco mais ácido.

Você vai até a geladeira, procura uma garrafa e eu me dedico ao armário e pego duas taças com formato estranho.

A gente se senta lado a lotado no tapete da sala e encosta no sofá.

Eu tiro seus sapatos e, ao tocar nos seus pés, a minha nuca fica eriçada.

Você coloca uma música no fundo, bem baixinha “ easy Way out, do Low Roar, enquanto massageio seus pés e você lentamente fecha os olhos.

Eu viro a taça, minha garganta ferve e continuo a te massagear.

Eis que você quebra o silêncio e diz: ” seria uma grande tragédia se um dia você se cansasse de mim. Agora é tarde demais. Esse gosto ácido vai ficar na minha boca para sempre. Eu vou querer as coisas assim, desse jeito. Há uns meses, ninguém conseguia chegar perto de mim. Todo mundo foi embora, mas você ficou.. ”

Eu não tenho argumentos para criar uma réplica, então me aproximo e coloco você deitada no meu colo.

Você sorri e seus olhos se fecham lentamente enquanto você deita em mim..

Antes de apagar, me pergunto se aquelas palavras vieram do álcool ou das suas profundezas.

Então caio no sono enquanto seu corpo esquenta o meu.

Capítulo 1

💛✨

Eu pedi duas cervejas e você riu porque disse que até hoje não decidi minha marca preferida e porque já sei que você prefere uma vodka, mas eu queria fingir que mando em alguma coisa. No meio do riso você falou sério e perguntou por que ainda não estou na lista dos livros mais vendidos. Eu te lembrei que nunca escrevi um livro.

– Mas eu te li.

– Não foi o livro que tu leu.

Fiz questão de deixar claro. A minha biblioteca é imaterial, como é a biblioteca da maioria de nós, sabia? Deixamos tudo aqui dentro, ninguém vê ou ouve. A diferença é que de vez em quando deixo ela falar mais alto, mas guardo a maioria em uma gaveta pra não correr o risco de ser alto demais e quebrar paredes e janelas – não queremos estragos, veja bem. Mantenho as aparências da normalidade dentro do possível. Quando olho para o lado, sei que todos estão fazendo a mesma coisa, cada um do seu jeitinho.

– Mas era tu.

Você me enxergou de cara. Isso é um problema, mas preferi não te dizer na hora. A gente tenta não assustar as pessoas durante os primeiros meses. Calma, daqui a mais dois meses você vai ter entendido até demais e já começará a partir, é quase uma cartilha pra todo mundo que acha que está começando a gostar de mim. É assim, é sempre assim, mesmo que a partida em si, de fato consumada, vá levar até mais uns meses.

– Então, você fala muito de amor.

– Falar é falar, não é viver.

– Você já se apaixonou?

– Não sei… E você?

– Já. Se você não sabe, então não se apaixonou.

– E se eu só não estiver querendo admitir?

– Então é porque ainda ama.

Você fala doce, mas a força é de um soco em cada sutileza. Não te culpo, eu ando precisando ouvir verdades, seja na mesa de um bar, sentada na areia da praia ou até por telefone. Talvez com você o tempo passe diferente, pensei comigo.

– Gosto das coisas que tu escreves.

– Obrigada… e desculpa, eu não sei falar das coisas que escrevo.

– Do que tu sabes falar então?

– Ah, de futebol, mas não sou muito boa com nomes, então deixa pra lá. De música, mas não entendo de rock antigo ou música clássica, então finge que eu não falo disso também. Eu sei falar de livros, pode ser?

E você me ouvia em silêncio tropeçando nas palavras pra tentar encontrar qualquer coisa que nos uma. É engraçado como a gente vive desesperado tentando encontrar algum elo que não quebre entre nós e a outra pessoa, como se fosse mesmo assim que as coisas funcionassem. E eu falei sem parar até entender que não adianta nada disso. Se você for gostar de mim, vai perceber que às vezes acordo chorando no meio da noite sem motivo. Vai perceber que eu tenho medo de ser feliz. Vai descobrir que eu gosto de gostar, mas que desaprendi pelo caminho.

– Tá tudo bem, eu também não sei falar de um monte de coisa de mim.

– Como o quê?

– Faculdade. Passei cinco anos com a certeza de estar fazendo tudo certo, mas aí peguei o diploma e não era nada disso.

– Aconteceu com muita gente…

– É, mas não deveria, só isso.

– E o que você vai fazer?

– E o teu livro?

– E o nosso casamento?

– A gente só se conhece há três meses, lembra?!

– E que o livro vai ser sobre ele.

– Ah, é?! E em que parte nós estamos?

– Primeiro capítulo.

E você me entendeu de cara.

– Já ouvi dizerem pra nunca se apaixonar por quem escreve.

– Ah, tudo bem. Eu não tenho nenhum livro.

Você pousa a cabeça no meu ombro devagar e eu te faço um carinho leve, como já fiz em tantas outras pessoas que logo escorregaram entre meus dedos. Mas com você não é só isso, eu entendi; com você é tudo isso.