Passe livre

João Pessoa/Paraíba

Eu ia escrever pra você não me desapontar, mas será que a gente pode colocar esse peso no outro? Eu mesma vou me/te desapontar, seja porque não sou tão fã de esportes radicais ( mas me chame pra uma trilha ) ou porque gosto de passar horas em silêncio ( não é regra, é costume ). Ou quem sabe eu vá te desapontar porque não sei esconder sentimentos e nem alongar discussões.

Não falo apenas da minha personalidade ou gostos. Eu vou te desapontar porque não sei adivinhar o que espera de mim. E não vou responder o que você imagina naquele sábado às 20:47 quando me pergunta indiretamente algo que você quis saber. Eu vou te desapontar porque talvez perca a hora de pedir desculpas por qualquer coisa ou insista no caminho errado. Ah, eu insisto muito no caminho errado, e isso também me desaponta.

Uma vez, ouvi que os outros vão embora quando não tem ” desafio “, como se essa coisa de se dividir fosse uma partida de Uno. Eu simplifico, mas não é o caminho. Esse foi o tema na última terapia. ” As pessoas gostam do que é difícil, mesmo se for ruim, e eu sou normal. ” Eu não estava lamentando, eu estava constatando, e a terapeuta perguntou se isso não era baixa autoestima. Eu expliquei que não, que até acho legal, mas o ser humano tem dessas ( inclusive eu ).

É isto: eu vou te desapontar porque sou normal. Já lutei pra ser muitas coisas na minha própria pele e descobri que ” normal ” caí bem. Me sinto tranquila, dentro-do-possivel-coisa-e-tal. Na minha normalidade, até me balanço às vezes pra sair algo novo qualquer, mas bem lá dentro, não de fora – é como eu acredito nas coisas. Eu vou te desapontar porque quando você morar nesse meu canto silencioso, porém acolhedor, talvez sinta falta do ” desafio “. O mais emocionante em mim é a calma, vai entender.

Eu não vou te contar a minha lista de fracassos pra parecer mais interessante nem complicar teu modo de ver a vida pra confundir. Eu não vou ser qualquer coisa além de mim, o que já me dá muito trabalho. Não posso colocar em você pesos que são da minha história, e nem pesos que não sou capaz de carregar. Aproveite esse passe livre pra me desapontar; isso é o que eu já espero ( de você e de mim ).

Jornada

Foi uma jornada até aqui.

Agora, a estrada se abre. Há caminhos opostos que talvez venham a se cruzar lá na frente, ou não. Sempre tem o ” ou não”.

Foi uma jornada difícil. Já nem conto mais no calendário, porque não vale a pena esse tanto de dias e semanas e meses e anos. Não vale… O calendário não conta muito bem o que ficou, apenas o que foi. Ele não diz o que será, só o que passou. E quanto ainda tem do que já foi? Eu não vou saber responder, porque a vida nunca deixa ver o saldo tão simples assim.

Uma jornada que eu pensei muitas vezes que ia faltar perna para completar ( nem sei bem o que significa ” completar ” ). Uma jornada de quase abrir o peito e expulsar a gritos, pontapés e tapas. Mas não dá: na vida real a gente precisa ser mais sútil do que isso, e esse é o problema; nem sempre a sutileza acompanha a urgência do tempo de se refazer. A ilha deserta que eu precisei percorrer sem uma alma viva foi só eu e eu mesma, ninguém viu, ninguém ouviu. Eu não tenho fôlego pra fazer o caminho duas vezes.

Essa jornada teve muito desaprender para reaprender de formas novas coisas nunca vistas ou sentidas nesses 27 anos da minha existência. Foi muito querer também, é claro. No fim das contas, foi até muito desquerer, e acho que essa palavra nem existe, mas, pro meu bem, precisei inventar.

Eu ouço aquelas músicas antigas e elas não fazem sentido. Eu revisto as memórias e elas não se encontram bem no espaço/tempo, parece que desalinharam. Eu procuro vestígios, mas não sei onde perdi a chave da gaveta em que tranquei tudo.

Essa jornada também é bonita, preciso dizer. É necessário se colocar do avesso pra se ver do lado certo ( existe? ). Foi essa jornada que me pegou pela mão e disse pra explorar, tentar qualquer coisa, sei lá. Ir, ir e ir, até as certezas se revirarem. Eu fui, e fui pra caramba. As certezas se reviraram. E agora?

Parque Solon de Lucena/ João Pessoa

Onde iam? Onde eu estava?

16:24/ João Pessoa, 20 de setembro de 2022

Iam devagar e sempre. Esse é o segredo da vida, não é? Devagar e sempre… Ainda hoje assisti um vídeo onde um senhor dizia bem assim sobre o que falaria para ele mais novo: ” desacelere ” .

Quem sabe estão juntos há 50 anos ou mais? Quem sabe se eles se conheceram ano passado? Amor de pandemia… quem sabe? Eu não sabia nada, mas reparei que ela ajeitou a gola da camisa dele e logo quando passavam por mim às 16:24 da tarde. Eu lembro do horário porque peguei no celular naquele momento só para ver se tinha alguma mensagem nova – não tinha – e me preparar para a foto.

Antes de passar por mim notei os dois porque ele havia parado. Olhou para o outro lado da rua, mas não falou nada. Ela só esperou ela voltar a andar, nem virou a cabeça para olhar junto, de repente já até se acostumou a ele parar volta e meia observando alguma coisa na cidade que fica na reflexão da própria cabeça. Na hora eu já sabia que sou aquela pessoa no relacionamento, a que para, fica encarando alguma coisa no seu mundinho e depois segue braço com braço.

Assim que passaram por mim eu me virei com o celular na mão. Essas cenas da cidade me ganham: o amor em meio aos prédios, carros, ônibus, pessoas, idas e vindas. Acho poucas coisas mais expressivas e bonitas, é o meu jeito de ver o mundo mesmo e não cair no lado ruim da força. Eu vejo amor no caos, porque ninguém passa ileso por ele ( o caos ou o amor, tanto faz ).

Tirei duas fotos para garantir melhor, essa até postei no stories no dia. Depois fiquei alguns segundos vendo eles seguirem o caminho e me perguntei: pra onde será que iam? Gosto de fazer essas histórias na cabeça, simplesmente porque fujo um pouquinho da realidade, e todo mundo precisa dessa fuga em uma terça – feira pela tarde fazendo campanha e um pouco cansada do dia. Voltei ao meu mundo quando minhas companheiras de trabalho me chamou , aí também lembrei que precisava seguir meu caminho na outra direção. Pra onde eu ia mesmo? Até esqueci.

E aí no esquecimento eu lembrei como era bom esquecer. Confuso, né? Tem coisas que só uma cena de amor faz. Eu nunca esqueço nada, não existe uma veia virginiana em mim que me deixe lá o esquecimento acontecer. Minha cabeça inventa idéias o tempo todo. E, de repente, pra onde eu ia? Fiquei na história deles: será que ela gosta de café com leite ou só de café puro? Será que eles ainda brigam por besteiras de início de relacionamento? Os dois pareciam ter pelo menos 80 anos… Será que ele acorda mais cedo que ela? Pra onde será que viajaram na lua de mel? E agora? Iam ao banco, padaria, visitar algum filho ou aproveitar a tarde que já se ia? Quem pede desculpa primeiro depois da briga? Ah, mas será mesmo que ainda brigam? Falando nisso… Será que se deixa de brigar por quem pisou na bola primeiro depois de um certo tempo? Será que os joguinhos ( tão chato e perda de tempo ) acabam em que fase?

Desacelere, dizia a pessoa no vídeo de hoje. E alí, naquela cena, eles caminhavam tão devagar, mais por limitação física do que conselhos de vida. Iam devagar e sempre, parecia muito bem saber o destino ( melhor do que eu ). Precisei abrir o Google Maps depois de meses… Deve ter mesmo muita coisa que a gente só descobre entre os segredos do coração e as lições do tempo.

Reencontrei meu caminho. É que não tinha sido fácil acordar nesse dia, me faltou um pouquinho de ânimo, mas lutei com o relógio. Eu tinha esquecido essa cena de dias atrás, mas relembrei agora, por voltar das 11h30. Deve ser o horário ou a mania de inventar histórias. Amanhã eu sei que vou brigar com o relógio de novo, mas tudo bem… Eu acelero, descacelero, enquadro o amor na fotografia e sigo aqui.

Toda cena vale um texto. Todo acaso vale um imaginário particular. Todo amor vale um tempo.

Amiga, senta aqui…

Foto: Elizabeth Bento / Praia do Bessa

Talvez você esteja precisando ouvir, então vamos lá, vou me encarregar de dizer – ou escrever, intérprete como preferir. Não garanto que vai ser amanhã ou até depois, mas vai ficar tudo bem, certo? Vai cair um tijolo aqui, uma construção alí, se duvidar, mas vai se reconstruir pedaço por pedaço.

Às vezes, a gente não sabe para onde ir direito, mas tudo bem estar perdido. Se quer saber, eu mesma tatuei, por exemplo, um coração humano, com uma menina lendo dentro dele. É assim que vou me encontrando, coração não tem mapa, nem adianta procurar pelas gavetas ou perguntar a mãe, ao pai, ao amigo ou a qualquer que seja. O caminho está alí, na mesma direção do destino, e só ele é quem pode te contar.

E o dia ruim, hein? Coisa horrível! Boleto chegando – Europeu não sabe o que é isso, o que me angústia mais ainda, então, se você está no Brasil, pelo menos há companhia-, É você atrasando o compromisso das 14h, das 15h e até da próxima vida, pra já economizar trabalho, é gente passando rasteira, é a chave que perdeu, é o analista que desmarcou, é a chuva que pegou, é a vida que, olha só, chegou. E você lá, toda-toda, plena, dona de si, tentando, disfarçando, sendo sua própria amiga, a chefe, a mãe, a filha, a namorada, a vizinha, até a inimiga, mas é assim: de tentativa em tentativa, fica tudo bem ( até os boletos, eu juro! ).

Brigar? Não adianta, não. A gente dá murro e murro na parede, mas só funciona pra sair com hematoma. Aliás, da vida a gente só saí é com hematoma mesmo, vai acostumando. Então, o que eu ia dizendo é que tudo bem tudo isso, viu? Tudo bem parecer que não vai aguentar, você paga os malditos boletos, conserta o que quebrou, cola daqui e dali a vida que vai acumulando.

Só promete que me faz um favor? Não vira um saco desse sem fundo! É, isso mesmo que você entendeu. Não vai acumulando sem dar uma selecionada, sem guardar alguma coisinha ou pessoa, sem se importar no fim das contas. Pra aguentar o peso, vale até uma dose de desespero, uma pintada de arrependimento vez ou outra, umas três colheres de sopa de replanejamento e um panelão inteiro de força de vontade. Ninguém normal aguenta o tranco, confia em mim. Ninguém, em sã consciência, saí ileso.

Enfim, vai ficar tudo bem. Você se reconstrói. Só não encontrou uma amiga pra dizer isso hoje, saiba que fica aqui o recado. Não é fácil, eu não vou te enganar. Diga – se de passagem, hoje eu desisti umas três vezes, mas tudo bem. Já que minha média é cinco por dia. Talvez a sua seja mais ou até menos. Talvez você seja feliz pra caramba e nem se dá conta. É tudo meio louco e descontrolado, entende? Você vive pra entender e entende que viver é só metade do caminho.

Vai ficar tudo bem, você mesma sabe disso. Toma um café quente e acaba esse dia. Só mais esse. Amanhã você começa de novo.

Tenho medo, aprendo, respiro e recomeço

Foto: Patrícia Nunes/ Nascer do sol

Venho descobrindo outros modos de fazer as coisas. Encontrando outras formas de sentir, planejar e até permitir que elas aconteçam sem eu controlar.

Eu tenho aprendido até mesmo a falar, o que já é imenso para quem normalmente só escreve, e a esperar as coisas que fogem de mim: nem tudo precisa ser tão imediato. Dias desses fiz uma tarefa especialmente difícil: aceitei que meu corpo não tinha forças pra correr de manhã e fui à noite. Nessa troca tão simples, sob algum custo, vi o nascer do sol de um jeito que só eu entendi. Eu precisava daquilo e nem sabia, mas não são assim as coisas que mais nos transformam?

Nessas de aprender eu tenho pensado nos outros. Cada um tem o seu tempo, e a gente não encaixa as pessoas na nossa vida como peça de quebra cabeça novo. A gente encaixa é um monte de peças com uma lasquinha aqui e alí, aquelas coisas meio quebradas que todos nós temos. Encaixa – se no caos, muito mais do que na calmaria: você faz daí o que dá, eu faço daqui o que dá e os acasos mais bonitos acontecem. As pessoas têm o tempo delas, e só fica quem aceita nosso relógio e vice – versa.

Já tem tanta coisa acontecendo por aí, eu não preciso complicar mais. Eu fico feliz só de ver alguns planos que vão se desenhando e saber que o hoje constrói o amanhã, mas que é isto: ainda tem o hoje ( ainda bem ). Um dia teve o ontem, aquele importantíssimo tempo que me ensinou a olhar para frente, levantar a cabeça e até virar um pouco para o lado, porque é por eles que acontecem os escapes da vida. É nele que as coisas/pessoas inesperadas nos encontram.

Eu tenho calma. Terminei meu café a pouco sem pressa, ficou até frio. Acompanhei com o pão que comprei hoje cedo, às 7h, porque felicidade tem cheiro, gosto e até rotina. Fiquei feliz de ver uma senhora passeando com um cachorro e o homem passando com o nascer do sol ao fundo. No caminho meu short rasgou, mas era muito cedo para reclamar.

Acordei bem, o que não quer dizer que estarei sempre bem, mas venho descobrindo o que é deixar a vida trazer uma surpresa ou outra. Ainda tenho medo demais para aceitar que as coisas boas acontecem a pessoas comuns como eu. Ainda tenho medo que tudo escorregue pela minha mão sem eu conseguir segurar, como nas cenas dos filmes. Ainda tenho medo de falar muito e sair tudo errado, mas trago boas intenções. Ainda tenho medo quando lembro de muitos dias no quarto sem querer abrir nem a janela. Ainda tenho medo de voltar para aquele quartinho escuro, frio e quieto, mas esse é dentro de mim. Ainda tenho medo de perder o tempo, o sonho, o jeito. Ainda tenho medo de me perder. Ainda tenho medo… Isso faz parte da vida.

Tenho aprendido a respirar, mesmo quando me afogo.

O verbo que fala

A vida não me sorriu assim de primeira, ou de repente fui eu que não vi (será?). Acho que me sorriu lá pela terceira, quarta, quem sabe até quinta vez. Deve ter desconfiado, porque eu também não sou muito de sorrir de primeira por me ver distraída pelo mundo em volta. Um dia eu encontrei as palavras… Juntei uma letra com outra, peguei uns livros com nomes de animais e quando vi lá estava: a vida me sorriu na primeira palavra que eu escrevi. Era meu nome, quase uma forma de me apresentar a mim mesma, e acho que foi alí que me reconheci no alto dos meus 06 anos.

Escrever é parte desse ” eu ” que ninguém vê, ou que eu gosto de tentar preservar comigo. Não é por mal, arrogância ou preguiça… É por instinto de preservação, coisa de quem aprendeu quem nem sempre os outros querem ouvir nossas palavras de coração aberto. E, vale dizer, as pessoas não precisam saber tudo sobre nós – e nós, não precisamos saber tudo sobre elas.

Escrever é esse lar que eu fiz pra mim, encontro e reencontro. É perder o rumo, traçar um caminho novo desconhecido, dar chance ao acaso. É me descobrir, mesmo quando pensava já ter me acertado. É recalcular as certezas, revisitar os sentimentos, reviver memórias .

Escrever é passado, presente e futuro. É quem eu fui mesmo antes de saber ler ou juntar as palavras. A primeira que aprendi foi mesmo o meu nome, a segunda foi o nome da minha mãe e a terceira foi ” amor “. Eu não sei explicar o motivo, talvez já estivesse mesmo escrito nas linhas do destino que aquela coisa de juntar letras ia ser a coisa que eu mais iria amar na vida, eu nunca questionei. Ou vai ver é só por ser uma palavra fácil.

Escrever é declarar o amor, mas também o fim dele. Fiz isso algumas vezes. Hoje é diferente, já penso que nem todo mundo merece um texto, seja de amor ou de raiva. Mas quando merece, há de merecer, bom… Aí é diferente. Escrever é dizer que, ei, olha aqui, olha pra mim, é sério, eu fico, se você ficar também. Vamos? Na hora que precisar eu falo, mas vê se cuida o que eu escrevo, porque é aí que eu sei me explicar no meio do meu jeito atrapalhado.

Escrever é curar traumas, ou pelo menos tentar. E também tem esse outro lado: escrever é mil e uma tentativas. São tentativas de entender, explicar, revelar, superar, criar, sentir, imaginar. É o meu universo que nunca dorme.

Escrever é terapia, foi a psicóloga que me disse, nem fui eu. Até então, eu achava que tinha alguma coisa errada comigo: eu poderia escrever o dia inteiro, e não é exagero. Chegava a ficar com dor de cabeça precisava escrever. Eu só queria parar um pouco, porque escrever também dói, e nem sempre eu queria doer. Às vezes o que eu precisava era silenciar e tudo ficaria bem. Até dosar esse controle demorou um pouco.

Escrever é fazer as pazes, como eu fiz com o meu jeito, entendendo que eu escrevo porque falar não é lá o meu forte. E não me entenda mal: eu posso discursar para várias pessoas, não tenho vergonha, estudei pra isso, mas não sobre mim, não sobre o que eu carrego aqui. Sobre isso eu só escrevo, e já é muito. Desde que aceitei o meu verbo ” escrever “, as palavras e a minha cabeça ficaram em paz. Hoje, eu consigo até respeitar quando as palavras surgem ou somem, deixo que tenham o tempo, o gosto e o modo delas. Às vezes, são ácidas, em outras passam rasgando na garganta, mas também sabem fazer carinho. São dias de sol ou de inverno, independente do que acontece lá fora, porque é isto: escrever é tempo de dentro.

Escrevo para fugir de mim e me trazer de volta. Me perdoe quando eu não souber falar, mas pode ter certeza de que vou fazer esforço para escrever.

Eu sinto, eu escrevo. A ordem dos fatores não altera o produto.